1985, UM MARCO NA HISTÓRIA - Um caminho para a liberdade e para a tolerância
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sábado, 14 de março de 2015
Edson Ferreira<br>Reportagem Local 
Ainda durante o regime de exceção, na década de 1970, surgiram os primeiros sinais de que a ditadura no Brasil estava chegando ao fim. Implodindo pela própria incapacidade de lidar com a crise econômica que quebraria o país dez anos depois, e pelas derrotas constantes da Arena partido do governo no Congresso, o General Ernesto Geisel ameniza a força do Estado, com a extinção do Ato Institucional nº 5 (AI-5), o fim da censura, a anistia aos exilados políticos e a liberação do pluripartidarismo. Essa "redemocratização" incomodava os militares da Linha Dura, que queriam a abertura política controlada, lenta e gradual, para manter o poder por mais tempo. No entanto, o povo cobrava uma mudança rápida, geral e irrestrita.
Encerrava-se, então, no dia 15 de março de 1985 um dos mais longos períodos ditatoriais da América Latina, quando o vice-presidente do Brasil, José Sarney, assumiu o cargo mais importante do País, interinamente, enquanto o ex-governador mineiro, Tancredo Neves era internado. Ele morreu 45 dias depois. Embora Sarney trouxesse no currículo a aproximação com os militares, o que gerava um ar de desconfiança, era com ele que começava a Nova República. A Nação voltava a respirar a democracia e com ela, viriam as eleições diretas, a Constituição "cidadã", o fortalecimento de instituições como a Polícia Federal e o Ministério Público, e os direitos individuais.
Paralelamente às manifestações pela reabertura política, que ocorriam por todo o país, germinava o movimento pelas eleições diretas. Segundo o historiador Alfredo Boulos Junior, autor de diversas obras sobre a História do Brasil, "a Diretas, já! é a mais popular campanha da República". Para ele, aquele movimento "em termos de popularidade, está para a República como a Abolição, que foi uma grande mobilização, está para o Império". O primeiro grande comício das diretas foi no dia 12 de janeiro de 1984, na Boca Maldita, em Curitiba.
A campanha pelo direito de votar para presidente, que não era bem recebido pelos militares, ganhou propulsão a partir de uma manobra do governo, que minimizou a emenda constitucional que instituía o voto direto, proposta do deputado federal Dante de Oliveira. Com a pressão do último presidente militar, João Figueiredo, o Congresso não aprovou a mudança. "No início, a emenda não teve muita repercussão no Congresso, mas depois ela serviu para catalisar os anseios reprimidos. Foram feitos vários comícios em favor da emenda e quando a emenda não passou, o movimento cresceu ainda mais", afirmou Boulos Junior. "A democracia tem esse poder de mobilizar, de apaixonar as pessoas pela liberdade."
Recessão
Quando a política desenvolvimentista dos militares estagnou e o crescimento do país não agradava o setor produtivo, a insatisfação com o regime chegou aos grupos que deram apoio ao golpe em 1964. Se o medo do comunismo já não era mais a principal justificativa para a "proteção militar", a inflação passou a ser o inimigo a ser vencido.
O cenário dos últimos dez anos da ditadura é bem retratado pelo professor Luiz Carlos Bresser Pereira, ex-ministro da Fazenda no governo Sarney, e ex-ministro da Administração e da Ciência e Tecnologia no governo de Fernando Henrique Cardoso. "Foi a mudança de posição dos empresários, que fortaleceu o pacto popular pela democracia."
Em entrevista à FOLHA, Bresser Pereira afirmou que a estratégia econômica dos militares endividou o Brasil. "Os militares fizeram reformas importantes, estatizações que permitiram crescimento acelerado. Mas depois cometeram um grande erro quando recorreram a poupança externa, o que endividou o país externamente."
E foi assim, com a economia quebrada, que os democratas receberam o governo depois dos 21 anos do regime militar. Apesar dos erros que vieram na sequência, com planos que não deram certo, a democracia seguiu o seu rumo e, segundo o ex-ministro, não corre riscos. "Quando um país é democrático, já realizou a sua revolução capitalista, tem grandes classes empresarial e trabalhadora, a forma de se apropriar do excedente econômico não é mais com a violência do Estado, é através do mercado. A democracia passa o sistema melhor para todos", defende Bresser Pereira.
O historiador Alfredo Boulos Junior concorda. "Toda a democracia é imperfeita, mas ele garante a liberdade para se lutar contras essas limitações. Ela anda ao lado da liberdade e da tolerância."
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