Após ser eleito pelo colégio eleitoral para a ser o primeiro presidente do período democrático, Tancredo Neves convocou um grupo de líderes de diversos partidos que elaboraram a proposta, que ficou conhecida como "Projeto dos Notáveis", para a nova Constituição. Com a morte de Tancredo, José Sarney entregou ao então presidente do Congresso, Ulysses Guimarães, a proposta para a finalização dos trabalhos.
Tradicional líder da oposição aos militares e fortalecido com a abertura política, Ulysses rejeitou o documento e articulou o início de um novo projeto. Segundo o professor de Direito Constitucional, Zulmar Fachin, "Ulysses era um democrata". "Foi legitimado por este poder que ele engavetou o Projeto dos Notáveis, permitindo que a Constituinte começasse do zero a elaborar a Constituição. E isto também contribuiu para que a Constituição viesse a ser democrática", explicou Fachin, que acompanhou de perto os trabalhos daquela Assembleia Constituinte.
Segundo o professor, "com debates acirrados e intensos", o Brasil viveu durante a Constituinte "talvez o momento mais rico da história". Durante a elaboração da Constituição, foram sugeridas 61.020 propostas de textos constitucionais, além de 122 emendas populares. Registraram-se, ainda, cerca de 10 mil visitas diárias à Constituinte.
Para atender aos anseios da nova sociedade democrática, o Estado não poderia mais ser o centro do regime político-jurídico. Fachin afirmou que essa expectativa foi suprida. "A Constituição de 1988 foi a primeira do Brasil a se iniciar tratando da pessoa humana. Todas as anteriores começavam tratando do Estado."
Ao citar os avanços conquistados pós-1988, como o Código de Defesa do Consumidor, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei de Improbidade Administrativa, Lei de Responsabilidade Fiscal e a Lei da Ficha Limpa, o jurista vê com desconfiança as propostas que surgem para a convocação de uma Constituinte exclusiva para a reforma política. "Basta uma lei. Uma assembleia Constituinte seria um tiro no escuro." (E.F.)

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