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PONTO DE VISTA 5m de leitura Atualizado em 27/08/2021, 15:21

‘Uma vez criado, o futuro muda o presente’

Pioneira do futurismo no Brasil mostra como essa ciência pode abrir a relação do homem com novas possibilidades

PUBLICAÇÃO
domingo, 29 de agosto de 2021

Lucas Catanho - Especial para a FOLHA
AUTOR autor do artigo

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Quando entramos em contato com o futurismo, temos mais contato com as possibilidades e nos munimos de inspiração e motivação para fazer mudanças e nos planejarmos para elas. O futuro não existe até o momento em que é criado. Uma vez criado, ele muda o presente. 

Imagem ilustrativa da imagem ‘Uma vez criado, o futuro muda o presente’
|  Foto: iStock
 

A declaração é de Rosa Alegria, futurista profissional há 20 anos e diretora-geral da plataforma de educação Teach the Future. Durante 20 anos, a pioneira em futurismo no Brasil foi executiva premiada no mundo corporativo, com destaque para as áreas de comunicação empresarial e responsabilidade social nas empresas, tendo conquistado várias premiações. Além disso, foi consultora de planejamento prospectivo para os governos do Uruguai e do Marrocos. 

Graduada pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP (Universidade de São Paulo) e mestre em Estudos do Futuro pela Universidade de Houston - Clear Lake (EUA), o mais reconhecido centro de formação de futuristas no mundo, Rosa participou recentemente da Semana Paranaense de Engenharia, Agronomia e Geociências.  

Durante o evento remoto promovido pelo Crea-PR, ela trouxe um pouco do que o futurismo pode fazer para fortalecer negócios na direção do futuro e se antecipar às mudanças. Nesta entrevista, Rosa aborda cenários sobre o futuro do trabalho desenvolvidos pela equipe do Projeto Millennium, rede global de pesquisa sobre o futuro, da qual faz parte e na qual representa no Brasil. “Há novos potenciais de trabalho na revolução 4.0, profissões novas que estão a caminho. Algumas até que ainda não existem, dentre elas algumas oportunidades para engenheiros, agrônomos e geocientistas”, relembra. 

O que é o futurismo? 

O futurismo, também denominado foresight na cultura anglo-saxônica e prospectiva na cultura latina, é uma ciência interdisciplinar que estuda o futuro, considerando as mudanças em curso e as que virão, para que indivíduos e organizações possam se preparar e se antecipar a elas.  

Chegou às escolas de ensino superior no final dos anos 1970 nos Estados Unidos e logo a seguir na Europa, vivendo agora uma enorme expansão em vários setores da sociedade. Antes de qualquer outra explicação, é preciso elucidar que estudar o futuro não se trata de prevê-lo, mas sim de imaginá-lo e também projetá-lo a partir das informações analisadas em seus impactos e potenciais possibilidades de futuros. O futuro é plural, não acreditamos que existam futuros pré-determinados. 

O que fazem os futuristas?   

Ajudam pessoas e organizações a se prepararem para mudanças repentinas e a gerenciarem as incertezas. Facilitam a expansão do pensamento criativo na busca de alternativas inovadoras. Através do uso de métodos prospectivos - exemplificando cenários - , ajudam a identificar e a lidar com futuros prováveis, possíveis e desejados. Futuristas profissionais enfatizam a mudança sistêmica e transformacional -mudanças descontínuas - em contraste aos planejadores que fazem projeções baseadas em mudanças sob condições e tendências em curso. Tendo em vista que previsões de longo prazo normalmente se equivocam, os futuristas descrevem futuros plausíveis e preferíveis alternativos, como complemento ao futuro esperado. Em vez de se limitarem a métodos quantitativos de projeção tradicionais, os futuristas também aplicam métodos qualitativos associados aos quantitativos. 

O futurismo tem alguma ligação com o movimento artístico do começo do século 21? 

Os estudos do futuro, que muitos chamam de futurismo, não têm nenhuma relação com o movimento artístico, que foi o futurismo que nasceu na Itália contra todos os elementos que traduziam o passado. Esse movimento acabou se aliando ao fascismo, o que o tornou um grupo político. Alguns futuristas não gostam de usar esse “termo” futurista, eu mesma não gosto. Mas acontece que no Brasil é a palavra que é mais aceita, por isso eu às vezes coloco em meus cursos, artigos e palestras. Quando o futurismo é utilizado no mundo das organizações para fortalecer a inovação e as estratégias, chamamos de foresight estratégico ou prospectiva estratégica. 

Qual a aplicação do futurismo na sociedade?  

É aplicado não só na sociedade, como nas empresas, nos governos e na vida pessoal. No que envolve o pessoal, eu ofereço cursos de futurismo pessoal para que as pessoas em transição de vida e carreira possam dar um salto na sua relação com as novas possibilidades. 

No âmbito empresarial, enriquece o planejamento estratégico e traz maior robustez às inovações através da ampliação de caminhos e do fortalecimento da imaginação dos profissionais envolvidos. São métodos e ferramentas inovadoras que somente o futurismo oferece. Representa a reinvenção do planejamento voltado à gestão de negócios, ao desenvolvimento pessoal e à inovação de produtos e serviços.  

Tem sido aplicado atualmente pelas mais inovadoras organizações, como Google, Facebook, Apple, Amazon, que operam inovações disruptivas em vários setores. Beneficia todos os que estejam necessitando obter habilidades estratégicas avançadas, abrir novos horizontes e gerar insights para inovar e redirecionar suas vidas, seus negócios, suas profissões.   

Normalmente, quando pensamos no futuro, ficamos com medo do que podemos ter que enfrentar sem ter ideia do que está por vir. Principalmente os jovens, que têm mais futuro pela frente e estão diante do mundo atual com tantos desafios e pesadelos. 

A pandemia provocou mudança de rota nos estudos do futuro? 

Sim, provocou mudanças. Muitos de nós estamos reavaliando abordagens e ampliando o nosso olhar para integrar novos atores nas conversações, integrando novos métodos de olhar para o futuro, tentando dar novo equilíbrio às respostas ao altíssimo grau de incerteza. Temos chamado essa era pós-Covid de “tempos pós-normais”. 

Saindo de um modelo que não estava dando certo e entrando num outro que ainda está por mostrar a que veio, nos defrontamos com o mais alto grau de incerteza já vivido, inaugurado pela pandemia da Covid-19. O contato da experiência humana com grandes rupturas como essa sempre definiu marcos históricos pontuados por começos e fins de eras. Navegando no mar das incertezas, se ainda existe um vestígio de certeza, seria essa: a de que, dessa vez, temos que acertar nas escolhas, porque deverá ser a última chance que temos de seguir caminhando, mas diferente. 

Dez anos antes da pandemia, o futurista paquistanês-britânico Ziaudin Sardar já tinha acenado em 2010 para um novo enquadramento teórico que define a aceleração dos tempos no artigo “Bem-vindos aos tempos pós-normais”, lastreado em pesquisas científicas desenvolvidas em 1993 pelos matemáticos Silvio Funtowicz e Jerry Ravetz.  

Nesse artigo, Sardar definiu a estrutura dos tempos que passou a chamar de “pós-normais”, pela observação de três fenômenos: complexidade, caos e contradição. Essa estrutura passou a servir de base científica para estudar, compreender e criar futuros, especialmente a partir de fundamentos do futurismo – disciplina transdisciplinar que estuda as mudanças para se preparar, se antecipar a elas e criar futuros desejáveis. 

A teoria da pós-normalidade procura compreender a aceleração dos tempos, então definidos como pós-normais, e o que caracteriza esse momento da transição é um período intermediário em que velhas ortodoxias estão morrendo, novas ainda precisam nascer e muito poucas coisas parecem fazer sentido, como Sardar define. 

Nesse contexto da pós-normalidade, nunca foi tão importante desenvolver processos de imaginação que fazem emergir e fluir novas respostas a velhas perguntas. Estamos também num movimento inclusivo, porque durante essas décadas estivemos muito fechados em círculos de especialistas, intelectuais que não estavam se abrindo para as vozes dos “leigos” e das minorias da sociedade.   

Os futuros passavam a ser profecias de quem detinha o poder, e continuam sendo muitas vezes, como se estivesse acontecendo uma colonização nas mentes das pessoas cujas mentalidades foram sendo ocupadas por futuros cristalizados por outros. 

Como futurista, eu questiono muitas dessas projeções de quem detém o poder do conhecimento e o poder econômico para manipular inovações que a eles lhes convêm. Os futuros não são imaginados de forma igualitária nem distribuída. Já dizia o escritor William Gibson: “O futuro chegou, mas ainda não está bem distribuído”. Precisamos, como futuristas, trabalhar nessa direção de descolonizar o pensamento das pessoas por futuros impostos e desalinhados com as múltiplas realidades. 

Quais as tendências do futuro no cenário pós-pandemia? 

Essa é uma pergunta muito ampla para se responder em algumas palavras. Mas o que posso afirmar é que algumas tendências que já estavam a caminho antes da pandemia estão se tornando realidade. O teletrabalho vinha caminhando a passos lentos desde a década de 80 – eu mesma tive uma experiencia nos anos 90, mas não deu certo, não havia cultura receptiva para esse tipo de rotina, falta de confiança, falta de estrutura etc. Com a pandemia, se impôs o trabalho remoto e as pessoas acabaram gostando muito e hoje não querem mais voltar aos escritórios. Uma tendência que andava lenta e que virou realidade. 

Assim como também a consciência ambiental, antes da Covid-19, todos falavam de mudança climática, aquecimento global, exaustão dos recursos naturais, métodos de produção inadequados à preservação do meio ambiente, mas quando tudo parou e vimos como tudo mudou com a desaceleração dos primeiros meses da pandemia no ano passado, vimos como é bom viver com céu mais limpo, sem poluição, sem CO2 dos engarrafamentos, as águas mais limpas dos lagos nos parques, o silêncio. 

Outra tendência que se acelerou é o consumo consciente: dentro de casa, sem ter que usar roupa nova a cada dia. Com menos visitas aos shoppings, começamos a perceber que precisamos de muito menos para viver e podemos gastar menos. Foi como um grande exame de realidade.   

Nesse contexto de consciência socioambiental imposto pela pandemia, as empresas protagonizam novas atitudes. Começaram a analisar mais profundamente os impactos que estão causando e sua responsabilidade com a desigualdade social e a devastação ambiental.   

Hoje existe a tendência da vantagem colaborativa, que eu estudei no começo do século e lancei um estudo sobre isso. No auge da pandemia, até concorrentes começaram a atuar colaborativamente entre si para encontrar soluções mitigadoras aos efeitos do coronavírus, como também em suas práticas de produção e seus compromissos com a sociedade e o meio ambiente.  

Podemos esperar com o pós-Covid uma sociedade mais bem encaminhada para o futuro, com maior consciência sobre a saúde, sobre a necessidade de se preparar melhor para o futuro, com novo olhar sobre a importância das políticas públicas, do investimento em ciência e tecnologia e de como podemos transformar nossa relação com o trabalho. 

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