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Londrina

Ponto de Vista

m de leitura Atualizado em 08/01/2022, 07:50

`Não somos mais apenas uma aposta´, diz fundador do primeiro unicórnio brasileiro dedicado à criptomoedas

A startup de Gustavo Chamati alcançou valor de US$ 2,1 bilhões. Nesta entrevista, ele conta que a empresa começou 2021 com 180 funcionários e terminou o ano com quase 700

PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de janeiro de 2022

Daniela Arcanjo/Folhapress
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São Paulo  - Em julho de 2021, após captação de US$ 200 milhões (quase R$ 1,129 bilhão) sob a liderança do fundo SoftBank, a startup Mercado Bitcoin alcançou o valor de US$ 2,1 bilhões (quase R$ 12 bilhões), o que a cunhou como o primeiro unicórnio dedicado a criptomoedas do Brasil.

Em um ano de recordes de investimento em tecnologia no país, mais nove empresas brasileiras ganharam o apelido dado a startups que atingem valor de mercado de US$ 1 bilhão (mais de R$ 5,6 bilhões). "No fundo, mais do que o título, é o que ele representa", diz o fundador da empresa, Gustavo Chamati, 40, em entrevista por videoconferência.

"A gente entra para uma classe de empresas que não são mais apostas, mas já se consolidaram, ainda que estejam em crescimento acelerado. "Apesar de ter nascido em 2013 - cinco anos após a criação do bitcoin -, a startup começou a levantar dinheiro de fundos apenas em dezembro de 2020. Isso explica a prematura precificação bilionária, já na série B.

Segundo Chamati, o faturamento da Mercado Bitcoin, que hoje não se limita mais a um só criptoativo, cresceu cinco vezes este ano em relação a 2020. A startup começou 2021 com 180 funcionários e termina com quase 700, e comprou três outras empresas do setor para formar uma holding.

Hoje eles têm instituições de pagamento, plataformas de ensino de criptoativos e um portal de notícia sobre bitcoin.

 Como receberam a notícia de que eram um unicórnio, em julho deste ano?

Várias empresas do mercado de criptoativos e blockchain cresceram aceleradamente nos últimos anos, então para a gente não foi diferente. É uma consequência da captação e da trajetória da empresa. Até por ter crescido muito rápido, a nossa captação já foi no valuation de US$ 2,1 bilhões, quer dizer, duas vezes o valor para virar um unicórnio. O status de unicórnio em si não mudou, mas a captação sim. O dinheiro faz diferença e veio porque a gente precisava dele para poder acelerar a nossa estruturação.

Além dos ganhos materiais, algo mudou na equipe ao conquistar esse marco?

 Sem dúvida. Com o título de unicórnio, a gente entra para uma classe de empresas que não são mais apostas, mas já se consolidaram, ainda que estejam em crescimento acelerado. No fundo, mais do que o título, é o que ele representa. E isso é sentido pela empresa como um todo e pelos parceiros comerciais. A conversa passa a ser em um nível diferente, por entenderem que alguém reconhecido pelo mercado avaliou a empresa, o time, a capacidade de entrega e se dispôs a investir em um valuation significativamente alto. É uma validação muito grande.

Como é a operação de vocês?

 Começamos como uma plataforma de negociação de bitcoin. O Mercado Bitcoin não vende nada. É uma plataforma de operação para que os clientes se encontrem, e a gente dá segurança para que eles consigam negociar. É basicamente um marketplace de ativos digitais estruturado em um formato de Bolsa de Valores. Os clientes fazem o depósito das moedas e colocam ordem de compra e venda.

Vocês pensam em se internacionalizar?

 Hoje a gente atua só no Brasil e estamos trabalhando na expansão para outros países desde o começo deste ano. Em alguns a gente tem negociado a nossa entrada com um player local para ter conhecimento do mercado. Em outros a gente está chegando por meio da compra de outras empresas já estabelecidas.

E quais são os países?

A gente olha prioritariamente para México, Argentina e Chile, além de uma operação na Europa.

Como você vê o volume de investimentos em startups este ano?

 Diversos especialistas dizem que há uma bolha financeira, especialmente no setor de blockchain. Eu sempre tento colocar as coisas em perspectiva. Toda disrupção sempre é olhada com desconfiança antes que se torne realidade. Foi assim com a internet, com o telefone celular, com o streaming de vídeo, com o MP3. Temos vários exemplos dos últimos 30 anos. Se a gente tenta se transportar para quando essas tecnologias estavam surgindo, a gente ouvia o mesmo discurso desconfiado. Na maioria das vezes, eu não acho que é mal-intencionado, é um desconhecimento mesmo. Eu não vejo como um serviço como o Pix poderia ter sido criado se o bitcoin não tivesse sido inventado lá em 2008. A tecnologia ligada às criptomoedas já está acelerando a mudança do mercado financeiro como um todo. Eu acho que é falta de visão, no fundo, sobre o potencial da tecnologia. E em termos de liquidez, ele não é um tema ligado às empresas de tecnologia, é um tema global. Foi a forma que os governos encontraram para enfrentar a crise financeira, e aí consequentemente há mais alocação de capital tanto em investimento de riscos quanto em empreendedorismo como um todo.

As empresas que hoje dominam o mercado de tecnologia deixaram algumas para trás, aquelas que não conseguiram sobreviver à competição. Como vocês se blindam em relação a isso?

O que a gente passa hoje é significativamente distante do que se passou com essas indústrias. Há um componente de desenvolvimento tecnológico e outro de tempo certo. Quando a gente fala de blockchain e criptoativos, é uma indústria que vem se desenvolvendo de forma global, e os players que acabaram se tornando líderes ao redor do mundo viram a mudança muito no começo, se posicionaram, cresceram e tem um tamanho bom para distribuir as mudanças tecnológicas para o seu usuário. A gente está intrinsecamente ligado ao que está acontecendo. Muitas vezes não conseguimos fazer algo porque surgem serviços que a tecnologia pode oferecer e que a regulação brasileira, por exemplo, não permite. Então a gente vem trabalhando a regulação para poder achar uma forma de oferecer serviços que tecnologia permite mas que a legislação brasileira ainda não entende.

Um IPO é uma conversa para agora?

A gente chegou a falar sobre a possibilidade de um IPO este ano, mas acabamos optando pela rodada privada. Há preocupações de uma empresa listada e aberta que para um grupo de rápido crescimento em uma indústria que está mudando muito rápido não são adequadas. Eu acho que o mercado ainda não entendeu o que é a indústria de criptoativos. A Coinbase, listada nos EUA, continua crescendo trimestre a trimestre, mas as ações ainda variam de acordo com o preço do bitcoin, e não com o que a empresa está entregando. Eu diria que não está no horizonte pelo menos dos próximos dois anos.