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Londrina

EFEITOS DA PANDEMIA

m de leitura Atualizado em 20/07/2020, 19:37

Indústria do esporte profissional amarga prejuízo de US$ 15 bilhões

Especialista mostra que crise global do novo coronavírus impactará também o consumo amador

PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de junho de 2020

Vitor Ogawa - Grupo Folha
AUTOR autor do artigo

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Amir Somoggi é considerado um dos maiores especialistas brasileiros em marketing e gestão esportiva. Administrador de empresas formado pela ESPM-SP, especializado em gestão esportiva pela FGV-SP (Fundação Getúlio Vargas) e pós-graduado em marketing esportivo pela Universidade de Barcelona, é também colunista da rádio CBN e do jornal Lance! sobre negócios do esporte. Possui vasta experiência na área de marketing e elaborou projetos de consultoria para clubes, agências, patrocinadores e investidores, com foco em estratégias de marketing e viabilidade econômico-financeira de projetos e é fundador e diretor-geral da consultoria Sports Value há mais de dois anos.

Imagem ilustrativa da imagem Indústria do esporte profissional amarga prejuízo de US$ 15 bilhões Imagem ilustrativa da imagem Indústria do esporte profissional amarga prejuízo de US$ 15 bilhões
|  Foto: Anderson Coelho/11-12-2017
 

Segundo Somoggi, o mercado global de esporte movimenta mais de US$ 756 bilhões anualmente, no entanto a crise global do novo coronavírus impactará diretamente toda a indústria esportiva, tanto os esportes profissionais como o consumo amador de esporte. A análise que ele fez para a Sports Value aponta que o esporte profissional global perderá mais de US$ 15 bilhões pelos impactos da Covid-19. Isso representa 2% de tudo que se movimenta com esporte globalmente.

Como o sr. chegou a esse número de US$ 15 bilhões?

Isso só de esporte profissional. Isso não inclui varejo, como academias de ginástica e clubes parceiros, onde a perda é muito maior, mas não tenho isso mapeado ainda. Os US$ 15 bilhões são de ligas, competições, times da televisão, patrocínios, bilheterias, sócio-torcedor e licenciamentos. No Brasil a perda será insignificante, até pelo câmbio como está. Nosso faturamento é muito pouco, então cada perda pesa muito. Até teve um artigo falando que no mundo as verbas dos patrocinadores esportivos será reduzida em 37% em 2020. Então vai ter que ser muito criativo para manter patrocinadores.

No cenário de crise as marcas não precisam aparecer para poder reverter esse cenário?

Essa é uma questão importante. Tem a ver com a situação que vivemos. Se os clubes fossem digitais hoje, talvez eu pudesse dizer que você está certo. Hoje quem é digital está voando. Na prática os clubes têm pouco a oferecer, porque o marketing esportivo está muito centrado na exibição dos jogos, e não nas relações que são criadas, não na mídia digital. Hoje os clubes estão no Facebook, no Instagram e no Twitter, mas estão gerando retorno para essas redes sociais. Não é uma comunidade do clube. O clube não ganha dinheiro com isso. Ele promove dados e consumo em torno da marca do clube, mas na prática quem mais capta essa informação é a rede social. Então qual é o desafio? O desafio é levar esse torcedor para dentro das plataformas do clube e sedimentar essa comunicação fora do jogo.

Há uma alternativa para sair do cenário de crise?

As perdas são inevitáveis. Vai ser um ano terrível, mas isso também deve servir para um processo de reposicionamento o futebol. Não está acontecendo, mas deveria. No marketing, a divulgação do futebol é analógica. O site dos clubes e as redes sociais são o máximo de digital que o clube tem. As pessoas têm que começar a consumir a Netflix do Corinthians, a Netflix do Palmeiras, a Netflix do São Paulo. Agora é a hora de fazer isso. O mercado de investidores está olhando para isso. Muitos patrocinadores falam sobre como o futebol é importante para o engajamento do fã. Eles sabem que nenhuma empresa tem o poder que o clube de futebol tem. 

O sr. acha que há relação direta do consumo de produtos com o time, com a paixão que o torcedor tem?

Eu acho que o clube tem que ter uma plataforma muito eficiente no ambiente digital para explorar essa potencialidade. Não adianta ter 50 milhões de torcedores, ou 10 milhões ou 1 milhão no Facebook, no Twitter ou no Instagram. Adianta você trazer esse cara para fechar cota de patrocínio não simplesmente para uma questão de visibilidade, mas para concretamente transportar o potencial desses milhões de fãs engajados para o consumo de marca. O maior ativo que o clube tem é o contato com o público. O clube pode ganhar valor adicional graças ao envolvimento dele com esses projetos comerciais. É olhar para o patrocínio não só por uma questão de placa ou uniforme, mas como acessar esses milhões de fãs que têm relacionamento com o clube e hoje não consomem absolutamente nada. Você tem que conseguir vender cada vez mais a esse público para ajudar o clube. Então a campanha de comunicação de massa passa a ajudar. Esse talvez seja o mote.

O sr. falou das redes sociais e aqui no Paraná o Atlético Paranaense tentou migrar para a plataforma de transmissão pela internet e sofreu resistência por parte da Federação Paranaense. Como o sr. analisa isso?

Nós vivemos um novo normal. Eu acho que esse novo normal é para tudo. É para o consumidor, é para o patrocinador e para a televisão. Já existe uma realidade clara.  Não haverá jogo de futebol com público. Isso está claro. As federações estaduais sobrevivem praticamente das taxas de percentual de bilheteria dos jogos. Então se for só disso elas estão ferradas. Esse é só um exemplo. O consumidor está sem renda e orientado praticamente única e exclusivamente para a sobrevivência. Eu estava vendo uma pesquisa que diz que os gastos estão voltados para a questão da higienização, para o alimento, para a questão da saúde e para educar os filhos. E só. Hoje há uma predisposição para gastar cada vez menos. Implantar um novo protocolo de higienização sanitária nos estádios gera mais custos. Isso vai ser repassado aos clubes, que estão sem receita e para voltar a operar vão ter que fazer das tripas coração.

O salário dos atletas vai cair diante desse novo padrão em função desses custos?

Nós temos um problema grave que é a incerteza. Não sabemos nada do que vai acontecer. O mercado de futebol só não vai ser pior do que o de entretenimento. Na minha conta o mercado de futebol vai perder mais de US$ 2 bilhões no Brasil em 2020 dos quais US$ 1,5 bilhão de receitas recorrentes que são da TV, do patrocínio, da bilheteria, do sócio-torcedor e do licenciamento. Os outros US$ 500 milhões ou US$ 600 milhões são de transferências. Esse número pode ser de US$ 1 bilhão também. Acho que o mercado de transferência em algum momento vai se restabelecer, antes até de o futebol voltar. Não faz sentido não poder transferir um jogador hoje. Mas uma coisa que ninguém está dizendo é que clubes muito quebrados vão perder jogadores por nada. 

É o caso do Cruzeiro?

O caso do Cruzeiro é complexo, porque o clube fechou com prejuízo de quase R$ 400 milhões. Está sem receita de televisão e o patrocínio vai cair ainda mais em 2020, mais que em 2019. O sócio-torcedor também irá diminuir. Então ele tem uma série de questões. Ele pode cair para a série C porque pode perder os pontos (por conta de uma dívida com a Fifa). Ele pode se tornar o clube mais prejudicado. Corinthians e São Paulo são outros que estão com prejuízos enormes. Há uma dívida de US$137 milhões do Corinthians e de US$ 156 milhões do São Paulo. Óbvio que eles entram nessa crise muito pior que o Atlético Paranaense ou o Flamengo. Mas eu sei que o Flamengo está desesperado, porque tem um custo operacional altíssimo. Precisa de dinheiro urgente.

A imagem dos clubes que têm forçado o retorno dos treinos e dos jogos nesta pandemia fica arranhada?

Essa pressão para voltar causa mal-estar na população. Tem um grupo grande da população que não quer pegar a doença e está se cuidando. Para ele o que pesa no consumo são empresas responsáveis preocupadas em ajudar a questão da saúde pública. Acho que infelizmente os clubes ficam forçando a barra. Eu entendo, porque eles estão sem bilheteria, caindo o sócio-torcedor, com uma folha gigantesca. A televisão já avisou que não paga enquanto não transmitir os jogos. Esse é um problema pelo qual o time passa, mas agora é uma questão pandêmica. Se o jogador ficar doente e tiver problema na carreira, quem é o dirigente que vai vir a público depois dizer que ele é o responsável por isso? Ou um árbitro que trabalha de  bancário ou é um professor de educação física no expediente e que é árbitro nas horas vagas e fica impossibilitado de criar a família dele, porque um dirigente acelerou o processo?  A economia e o social são inter-relacionáveis. A credibilidade de um clube caminha junto com projetos esportivos e mercadológicos. O Flamengo precisa da marca forte e da relação com os fãs para vender camisas e para atrair patrocínios.

Como fica o cenário para clubes da série B, C e D que sobrevivem com pouquíssimos recursos?

A questão da série C e D tem um grande problema porque o clube já é deficitário. Aos trancos e barrancos ia lá e participava de uma série D, por exemplo. Antes fazia das tripas coração e ia aos trancos e barrancos. O São Caetano por exemplo, já avisou que não vai participar de nada, porque só se viabiliza se não participar de competições. Isso escancara essa ferida aberta do futebol brasileiro. Hoje jogar no futebol brasileiro é ineficaz, é improdutivo, é prejuízo. Tudo converge para dar errado. Essa é a questão desses clubes. 

Pode haver ajuda financeira aos clubes a exemplo da criação da Timemania?

A Timemania não diminuiu a dívida dos clubes. Só aumentou. Ela deu mais chances para os clubes continuarem sonegando. A dívida só aumenta. Esse modelo do governo federal ajudar os clubes nunca funcionou no Brasil. A CBF tem R$ 70 milhões em caixa e minha proposta é de que ela tem a obrigação de usar esse recurso para obrigar os clubes a fazer um choque de gestão como contrapartida para ter acesso a um financiamento ou linha de crédito, mas a CBF não tem interesse nisso. Pelos meus cálculos as folhas salariais dos clubes precisam ser reduzidas em 25% urgentemente, mas é muito difícil, porque são contratos longos e há um custo para reduzir isso. Vai ter muita judicialização, porque muitas reduções salariais não foram acordadas entre as partes. Os clubes vão sofrer com o aumento de passivo depois da crise.

E os demais esportes profissionais?

É a mesma coisa que os clubes pequenos de futebol. O esporte brasileiro não tem dinheiro. Tivemos Copa do Mundo e Jogos Olímpicos e gastamos tudo e não resolvemos nada estruturalmente. O esporte vive um drama econômico e esportivo. Estamos cada vez piores. Não vejo um futuro promissor para o esporte brasileiro pós-pandemia. 

 Este era para ser um ano olímpico, mas os jogos foram adiados para o ano que vem. Há a possibilidade de cancelamento dos Jogos. O que o sr. tem a dizer sobre isso?

Não há garantia de que no ano que vem vai ter Jogos. É um prejuízo imensurável do ponto de vista econômico e esportivo. Nem consigo calcular. Acredito que ainda vão dar um jeito no momento em que acalmar um pouco. Vão correr para fazer. Acho difícil não ter os jogos. Seria uma tragédia, porque é o maior evento da Terra, mais até do que a Copa do Mundo. O calendário esportivo, que é quadrianual, já está ferrado.

 Existem eventos esportivos que antecedem a Olimpíada, que proporcionam a classificação dos atletas para o evento. O preparo dos atletas fica mais difícil com essa indefinição do calendário.

Isso quebrou os atletas. Quebrou o preparo. Todo mundo estava trabalhando para explodir nos Jogos Olímpicos. Não tem ninguém que ganhe. São perdas inevitáveis em escala que a gente nunca imaginou. Por mais que o atleta treine e busque, vai ter a queda de rendimento.