Covid-19 acentua negligência social para população acima de 60 anos

Envelhecer na pandemia

Viviani Costa - Grupo Folha
Viviani Costa - Grupo Folha

Mais de 135 mil idosos foram infectados pelo novo coronavírus no Brasil e morreram em decorrência da Covid-19. Os dados do Ministério da Saúde divulgados no final de dezembro representavam mais de 70% dos 182 mil óbitos registrados até então. Nesta semana, o número total de mortes em todas as faixas etárias ultrapassou a marca de 200 mil.

 

Covid-19 acentua negligência social para população acima de 60 anos
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Desde o início da pandemia, o grupo considerado de risco enfrenta preconceito e descaso por meio da naturalização dos óbitos. No mercado de trabalho, milhares perderam o emprego. Nos primeiros meses da Covid-19 no Brasil, 36% dos idosos que possuíam carteira de trabalho assinada ficaram sem rendimentos ou tiveram queda na renda. Na informalidade, esse índice chegou a 55%, de acordo com pesquisa coordenada pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz).


Para a socióloga, mestre em demografia e doutora em Saúde Pública, Dalia Romero, a falta de investimentos e de organização da atenção primária, além da invisibilidade das questões ligadas aos idosos, impactam diretamente no dia a dia dessa população que, antes mesmo da pandemia, já convivia com o isolamento social e o medo de adoecer.


A pesquisadora do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict\Fiocruz) e coordenadora do Grupo de Informação em Saúde e Envelhecimento na mesma instituição ressalta que o fortalecimento do SUS é primordial para gerar melhores condições de vida para a população idosa no Brasil.


Além da alta taxa de mortalidade nessa faixa etária, qual o impacto da Covid-19 na realidade enfrentada pelos idosos?

Para quem é idoso não é novidade a experiência que se vive na pandemia. O medo de adoecer e o medo do isolamento são dois medos que vamos adquirindo na medida em que ficamos cientes de que estamos envelhecendo. Simone de Beauvoir e Norbert Elias já falavam sobre isso há muito tempo. O pior de envelhecer não é morrer. É ficar distante, sozinho e à margem da sociedade. Essa experiência, claro, é muito mais intensa nesse momento para todos. Mas, entre os idosos, é um tema que já existe, já estava presente. Agora a situação está piorando. Na medida em que um país abandona a atenção primária e a visita domiciliar, ele abandona os idosos.


Algumas pesquisas apontam que os idosos estão sofrendo menos na pandemia. Quando perguntam para adolescentes se eles perderam amigos, eles dizem que sim. Quando perguntam se eles se sentem sozinhos, dizem que se sentem muito mais sozinhos ao comparar o período antes da pandemia e depois da pandemia. Mas isso não significa que seja uma boa notícia sobre a situação do idoso. É que a experiência de envelhecer não tem visibilidade. Não é uma questão que preocupa uma sociedade como a brasileira.


Na pandemia, sem dúvida, o foco é a questão do cuidado das pessoas idosas. Não faltam números para nos mostrar que elas são as principais vítimas dessa doença. As famílias têm poucos recursos para cuidar adequadamente dos idosos porque tudo se individualizou. Não sei como é em Londrina, mas aqui, no Rio de Janeiro, cada um se vira com a sua família e com o seu 'problema'. Quando o cuidado se torna uma questão individual, isso é muito problemático para quem é cuidado e para quem cuida porque você não tem ferramentas adequadas para isso. Não sabe o que fazer, onde levar o idoso, não sabe até que ponto protege ou se excede. O grave problema, inclusive da pandemia, é fazer desse cuidado um problema doméstico.


Em sociedades como na Espanha e em Portugal esse é um cuidado coletivo através de uma rede de atenção primária, agente comunitário e rede de apoio com telefones para tirar dúvidas. O desamparo que nós temos no Brasil é muito grave e o que é mais triste é que ele está passando a ser culpa de cada um. Quando morre um idoso geralmente a pergunta que fica é: por que ele não foi cuidado adequadamente? E alguém da família vai se sentir culpado por isso. Não sei se ao final da pandemia vamos chegar a ter uma análise adequada sobre o que é envelhecer no Brasil e o que é envelhecer no Brasil com pandemia.


Embora se fale que os idosos são as principais vítimas, o que está sendo publicado, priorizado nas agendas de pesquisa e pela mídia não é sobre a particularidade do idoso. Muitas vezes o olhar que se tem sobre essa faixa etária é um olhar infantilizado. É aquele idoso que foge de casa para ir à padaria comprar pão. Se infantiliza e não se coloca a real dimensão do problema.


Muitos idosos são responsáveis hoje por grande parte da renda das famílias. É possível mensurar o reflexo social do aumento do desemprego nessa faixa etária?

Pesquisas do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] já mostraram que o desemprego foi maior para a população idosa. Por outro lado, a principal fonte de emprego entre idosos, especialmente entre as idosas, são empregos informais, sem vínculo de trabalho como empregadas domésticas.


Como muitas vezes nós vemos os idosos de forma infantilizada fica quase como uma caridade o fato de cuidar. O papel do idoso não é reconhecido na sociedade e não estou falando isso romanticamente não. Não se reconhece de fato o que ele representa à sociedade, especialmente na economia.


A proporção de jovens, adultos e crianças que depende da renda do idoso é altíssima, seja de classe média, alta ou baixa. É algo muito complexo. A morte de cada idoso significa muitas outras pessoas perdendo a renda e chegando até a fila da pobreza. O cuidar do idoso, além de uma questão social e de saúde pública, também deveria ser visto considerando o interesse econômico.


Você pensa nas famílias pobres em que o idoso tem um BPC, Benefício de Prestação Continuada. O idoso morre e essa era a única renda da família porque o jovem está desempregado. O estado não vai continuar pagando o BPC porque o idoso morreu. Muitas vezes, esse é um dinheiro que o idoso não utiliza nem para si, ele compra o caderno de uma criança da família. Outra situação, conheço várias pessoas que resolveram agora voltar a morar com os pais para não ter a despesa do aluguel.


Essa geração de idosos estava em idade ativa quando o Brasil tinha fonte de emprego em melhores condições trabalhistas, com vínculos. Hoje eles têm aposentadoria, conseguiram comprar uma casa, era uma situação de crescimento econômico e de maior estabilidade laboral. Muitas pessoas, principalmente os jovens, têm a fantasia de que conseguem tudo sozinhos, sem a ajuda de ninguém. Só que elas não colocam nessa conta quanta ajuda já tiveram até ali.


Como reduzir o impacto do distanciamento social?

As pessoas relacionam distanciamento social com solidão. O distanciamento social não te deixa necessariamente sozinho. Isso é algo que nós temos que aprender rapidamente no Brasil que está envelhecendo. Temos que ter estratégias de comunicação com pessoas que estejam em distanciamento social, especialmente, os idosos. Por exemplo, uma prática que se abandona na nossa sociedade é falar ao telefone. O jovem não sabe que dá para falar pelo telefone também. Geralmente, ele só escreve mensagens. É preciso traçar uma estratégia familiar para cuidar mesmo a distância.


Outro problema sério e que deixa o idoso sozinho é o analfabetismo tecnológico. Aqui no Brasil não se fez um investimento social importante para alfabetizar pessoas de 50 anos ou mais em computadores e celulares. Conheci vários projetos nesse sentido, mas pareciam coisas supérfluas, não pareciam interessantes para um investimento em capacitar tecnologicamente o idoso e hoje vemos como isso era importante. Tem maneiras de você não se sentir sozinho mesmo estando em distanciamento social.


Quando você vai para cidades em que a atenção primária funciona, em que a pessoa idosa tem com quem falar, em que ela sabe que alguém vai ligar para saber como ela está, ela não sente a solidão da mesma maneira. Então é paradoxal nesse momento do país em que as pessoas pobres estão passando por muita dificuldade, mas naquele lugar em que funciona essa estratégia de comunicação, de proximidade, estão vivendo com menos pesar essa situação da solidão do que pessoas ricas com muito dinheiro que interpretam que o sucesso é morar sozinho, distante e terceirizam os cuidados. Há casos de suicídio por causa da solidão em todas as faixas etárias. Se entristecer jovem é um problema, mas se entristecer idoso pode aproximar da morte.


O que esperar da pós-pandemia?

É preciso estabelecer estratégias de comunicação adequadas a esse mal estar do idoso na pandemia e na pós-pandemia. Temos muitas críticas a associar a morte a uma doença crônica ou ao fato de você estar em determinada faixa etária. Isso é totalmente perverso por várias razões. Uma delas é que é muito difícil hoje uma pessoa com mais de 40 anos não ter uma doença crônica, por exemplo, não ser hipertensa. Cerca de 40% dos adultos são hipertensos. Ninguém pode negar que a Covid-19 é uma doença evitável e evitável com uma fórmula relativamente barata que é o distanciamento social. O Brasil tem uma letalidade maior do que muitos países.


Assim como algumas pessoas dizem que 'só Jesus salva', eu acho que só o SUS salva. Não é apenas para o idoso de hoje, mas para o idoso daqui a 5 anos, daqui a 10 anos. Quando eu falo do SUS, falo em toda a sua complexidade onde a base é a atenção primária. Se o Brasil não melhorar a atenção primária, o futuro será muito ruim. Isso não apenas porque os sobreviventes da Covid-19 poderão ter sequelas, mas também porque estamos em um período de um ou dois anos em que a população idosa não tem um acompanhamento constante sobre a sua saúde para diversas doenças crônicas que tem ou possa vir a ter. Não vejo um futuro promissor se não for pelo fortalecimento do SUS.


Outro ponto é fortalecer as instituições de longa permanência que chamávamos de asilo. Isso é fundamental. É o futuro de grande parte do idoso brasileiro. É preciso desmistificar essas instituições como lugar de idoso abandonado e de culpabilização dos filhos. Não existe fórmula mágica. Se diminui a fecundidade e as famílias são cada vez menores, se as mulheres e os homens não têm apoio nem para cuidar de seus filhos muito menos para cuidar de seus pais, não tem outra solução que não seja morar em residências coletivas com o estado sendo o responsável por isso. O Brasil hoje não possui nem dados sobre a situação da saúde do idoso que mora em instituições de longa permanência. Essa falta de informação também invisibiliza o problema. O estado não está sendo responsabilizado.


A Organização Mundial de Saúde propôs a Década do Envelhecimento Saudável (2020-2030). O Brasil se comprometeu, mas está na contramão disso. O governo atual distribuiu dinheiro para algumas instituições de longa permanência, mas não sabemos qual critério e nem o que foi feito. Não é apenas jogar dinheiro. É uma questão muito complexa. Estou muito preocupada com os idosos de hoje, mas estou ainda mais preocupada com os idosos dos próximos dez anos.

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