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Londrina

PONTO DE VISTA

m de leitura Atualizado em 04/06/2022, 00:05

'A infraestrutura verde é tão ou mais importante que a cinza'

Professora destaca a relevância de soluções baseadas na natureza, como a famosa preservação dos fundos de vale de Londrina

PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de junho de 2022

Vítor Ogawa - Grupo Folha
AUTOR autor do artigo

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De acordo com dados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) 2015, a maioria da população brasileira (84,72%) vive em áreas urbanas e os outros 15,28% vivem em áreas rurais. Nesse contexto a maneira como a população das grandes cidades vive ganha cada vez mais importância. Por isso, o conceito de infraestrutura verde deve passar a fazer parte do planejamento urbano.

Cecília Herzog, professora da PUCRJ e integrante da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza Cecília Herzog, professora da PUCRJ e integrante da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza
Cecília Herzog, professora da PUCRJ e integrante da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza |  Foto: Cecília Herzog/Acervo Pessoal
 

Infraestrutura verde é fundamentada na criação de uma rede de paisagens verde-azul (vegetação e sistemas hídricos) que desempenham funções infraestruturais ao mesmo tempo, em que fornecem serviços ecossistêmicos às cidades. Nela, o gerenciamento das águas é feito por SBN (Soluções Baseadas na Natureza) como jardins de chuva, canteiros pluviais, bacias de infiltração vegetada e zonas úmidas, que adaptam as infraestruturas existentes ao ciclo hidrológico e aos outros processos ecológicos.

Para marcar o Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, a reportagem da FOLHA conversou com a arquiteta Cecília Herzog, professora da PUCRJ e integrante da Recn (Rede de Especialistas em Conservação da Natureza), criada pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. Herzog elogiou a preservação dos fundos de vale de Londrina e ressaltou que o modelo deveria ser adotado por outros municípios. 

Em anos eleitorais a prioridade é a construção de pavimentações, de prédios públicos e de pontes, trincheiras e viadutos, a chamada infraestrutura cinza. Pouco se fala, no entanto, em realizações ligadas à preservação ou ampliação de áreas verdes. A conservação da biodiversidade gera desenvolvimento econômico e bem-estar social, mas os poucos espaços verdes que existem nas cidades acabam dando lugar para o cimento e a impermeabilização do solo. Como evitar isso?

A  infraestrutura verde é tão ou mais importante do que a infraestrutura cinza. A arborização das ruas é parte dessa infraestrutura verde, porque vai garantir a qualidade do ar e vai garantir água na bacia hidrográfica inteira. Grandes obras de engenharia são ótimas para as empresas de engenharia e para os políticos, mas a população não entende a importância de ter as áreas com natureza na cidade. Nós estamos falando na questão das inundações, na questão do calor urbano e da segurança hídrica, questões seríssimas no Brasil.

O plano diretor de Londrina elaborado por Prestes Maia, ainda na década de 1950, projetou a preservação dos fundos de vale e hoje isso está sendo utilizado para a criação de parques lineares. Isso ajuda a evitar a escassez no fornecimento de água?

É isso que todas as cidades deveriam fazer, tirar as rodovias dos vales e fazer parques lineares, que seriam corredores verdes multifuncionais, onde você possa andar de bicicleta, a pé, de patinete, de patinete elétrico. Pode ocupar com quadras esportivas e outras coisas. Isso colabora para a cidade não ter tantas enchentes na cidade. 

Muitos municípios utilizam a captação de aquíferos para realizar o abastecimento de água da cidade, como Riberão Preto (SP) e Ibiporã, município vizinho de Londrina, que utiliza a água do Aquífero Guarani. A sra. pode falar sobre a importância da recarga desses aquíferos, uma vez que a impermeabilização do solo pode inviabilizar a recarga dos lençóis freáticos? 

Na França, por exemplo, existem áreas de manancial que são preservadas e de onde eles acabam recarregando esses aquíferos. É tudo área de reserva. Não se mexe lá. Em Boston, nos Estados Unidos, é a mesma coisa. Lá, desde 1910 tem uma área que tinha um vilarejo, mas que foi inundada e hoje ninguém pode entrar lá. É um santuário, e mantém a segurança hídrica de Boston e nas cidades vizinhas. No Brasil, o pessoal fura poço em tudo que é lugar. Vai tirando água para irrigar e as monoculturas que fazem o uso de agrotóxico acabam contaminando os aquíferos (por lixiviação). Em alguns lugares do Aquífero Guarani a água já está imprópria para o consumo. Isso vai inviabilizar o Guarani como manancial. Quando as pessoas ingerem veneno na água nem sabem que estão sendo envenenadas, mas se a água estiver salina, você não consegue nem tomar. O solo que o Brasil possui saliniza muito, como na Austrália. 

Recentemente houve a questão das inundações em Recife e no Rio de Janeiro. A impermeabilização do solo acaba contribuindo para as inundações, não?

Por isso é necessário pensar em SBN (Soluções Baseadas na Natureza), como as aquatórias (neologismo criado para designar rotatórias criadas para serem espaços de drenagem urbana). Em São Paulo isto já está sendo feito e em canteiros das vias também. Se você encapar o solo, as cidades vão ficando com uma qualidade de vida muito ruim em todos os sentidos. Você tem mais poluição, você tem mais riscos de inundação, e as famílias com menos condições financeiras ou com menos educação acabam sendo as mais impactadas e são sempre empurradas para as áreas de risco.

Pode citar um exemplo de SBN?

As cidades devem reproduzir soluções baseadas na natureza, que são essas SBN. No mundo inteiro há regiões que sofrem por água demais e por água de menos também. É preciso tirar o asfalto e tirar o concreto. É meter a britadeira e abrir espaço para trazer vegetação, trazer a natureza de volta para a cidade. Eu sei que Londrina tem um projeto que está sendo implementado no Lago Cabrinha (zona norte), que fez um trabalho desses no córrego. Eu até conhecia alguém que era da Sema (Secretaria de Meio Ambiente) de Londrina, logo antes da pandemia, mas depois eu não acompanhei mais o andamento disso. (N.R.: No local foram feitos o rearranjo de rochas basálticas que haviam sido colocadas no Lago Cabrinha pela CMTU; o plantio de vegetação, formando uma barreira de contenção para reduzir a velocidade da água das chuvas; colocação de pedras de modo a formar pequenas piscinas escalonadas, sendo a primeira mais profunda que as seguintes, para evitar problemas como possíveis inundações e deslizamentos de terra, além de possibilitar o controle da poluição difusa.) 

Em relação à arborização urbana, um grande problema é a poda agressiva. As cidades precisam dos cabos de energia, de telefonia e de internet. Como ter o equilíbrio?

Uma arborização intensa de ruas é ótima. As árvores precisam de copas generosas para se desenvolver e criar raízes, ou elas não vão vingar. Muitas concessionárias realizam essa poda agressiva. O município deve ter um plano de cabeamento de todas essas concessionárias, na hora que elas recebem a concessão. Esse cabeamento deve passar debaixo da calçada, para que a concessionária tenha acesso fácil e isso não interfira nas raízes das árvores. Isso eliminaria um problema  de passar os fios aéreos. A ação deve ser feita de forma ampla e sistêmica nas cidades. É preciso ter essa visão integrada e que todas as secretarias trabalhem em conjunto, porque não adianta a secretaria do meio ambiente querer fazer uma coisa e a secretaria de infraestrutura fazer outra.  

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