Zilda Arns vai deixar a Pastoral da Criança
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domingo, 03 de dezembro de 2006
Mônica Manir<br> Agência Estado 
São Paulo - Semana passada, Zilda Arns subiu duas vezes ao palco: para receber o prêmio ''Mulheres Mais Influentes do Brasil'', da ''Revista Forbes'', em nome da ministra Marina Silva, que lá não pôde estar. E para receber a mesma estatueta em nome de si própria. Num vestido verde-água e branco, ela pediu no mesmo tom brando que a sociedade se mostre mais solidária, que todos os pobres sejam incluídos, que cuidemos de nossas crianças e adolescentes e que Deus nos acompanhe a todos.
Nesta mesma semana, a pediatra e sanitarista anunciou que descerá da coordenação da Pastoral da Criança em 2007. Há 23 anos, ela aceitou a encomenda de Dom Paulo Evaristo, seu irmão, para tocar um projeto da Igreja que guilhotinasse as altíssimas taxas de mortalidade infantil do País. A proposta-piloto nasceu em Florestópolis, no Paraná, onde morriam 127 crianças para cada mil nascidas vivas. Depois de um ano, a Pastoral da Criança derrubava o índice para 28 mortes.
Inspirada na multiplicação de peixes e pães do Evangelho, a Pastoral se proliferou em mais de 42 mil comunidades (as mais pobres das pobres), onde mais de 270 mil voluntários (a maioria tão pobre quanto) orientam gestantes e tiram crianças com menos de 6 anos da desnutrição, da pneumonia, da diarréia. É o maior programa do gênero no mundo - mundo aliás que requisita seus serviços como uma franquia de solidariedade. A Pastoral já atua em 14 países na América Latina, Ásia e África. O próximo na lista de espera é o Haiti.
Por que a senhora deixará a coordenação da Pastoral da Criança no ano que vem?
Coordeno há 23 anos a Pastoral. Ela já está consolidada, muito organizada. Quero dar oportunidade para outros conduzirem os trabalhos. Além disso, penso em passar o bastão enquanto estiver com força, bem de saúde, para poder visitar as comunidades. Faz um mês fui ao Piauí. Estive em Teresina, Picos, Parnaíba e São Raimundo Nonato. Encontrei as lideranças lá, elas vêm me abraçar, isso anima a pastoral. Há dois anos também coordeno a Pastoral da Pessoa Idosa, que acompanha 54 mil idosos por mês. Quero que ela se desenvolva tão bem como a Pastoral da Criança.
A Pastoral da Criança já alcançou todos os seus objetivos?
A Pastoral precisa ser aperfeiçoada porque nosso lema é atender os mais pobres dos pobres, entre os quais encontramos todo tipo de problema social. Uma das nossas prioridades é, em 2007 e 2008, concentrar esforços para reduzir ainda mais a mortalidade das crianças abaixo de 28 dias. No Brasil, 50% ou mais vão a óbito antes de completar esse tempo de vida. Entre as crianças atendidas pela Pastoral, a porcentagem é de 36%. Lembro que no começo do nosso trabalho, em 1983, eram 80 mortes por mil. Agora estamos com 15 em mil.
Há entraves culturais ao trabalho da Pastoral?
Muitas vezes o povo se conforma com que as coisas andem mal. Alguns maridos também não permitem que as voluntárias visitem as famílias. Mas, no geral, a diversidade cultural é uma riqueza. No Dia da Celebração da Vida, por exemplo, os índios têm o costume de acompanhar a pesagem. Então, quando se esperam 50 pessoas, aparecem 200 delas, famílias inteiras. Eu acho bonito, mas precisamos estar preparados porque distribuímos um lanche nesse dia, eles vão até lá também esperando comer.
O Bolsa Família fez diferença no combate à pobreza?
Ainda é cedo para avaliar, mas uma coisa tenho notado: as famílias, tendo dinheiro, movimentam o desenvolvimento comunitário. Só que não pode ficar nisso. Tem que abrir portas de saída. É preciso diminuir um pouco a burocracia e fomentar projetos de geração de emprego. O Bolsa Família quer que a criança vá para a escola, mas a qualidade do ensino tem de melhorar muito. Vale pagar para isso acontecer.


