Zappa assume TJ com déficit de R$ 10 mi
Albari RosaHarmoniaZappa: Vai haver um relacionamento cordial, não só entre os poderes, como entre os próprios membros do poderZappa assume TJ com déficit de R$ 10 mi
Desembargador quer tornar o Judiciário mais conhecido da população, mas admite que os custos estão afastando muita gente
Leandro Donatti
e Miriam Karam
Folha - Quais são as suas perspectivas para os próximos dois anos?
Sydney Zappa - O primeiro problema são as contas a serem pagas, das quais ainda não tenho total conhecimento. Elas advém de fornecimento e aquisição de imóveis, além de pagamentos em geral. Como, por exemplo, a aquisição do Fórum de Cascavel. Foi adquirido o prédio todo, já inaugurado, mas não foi pago. Estamos em atraso de pagamento há alguns meses.
Folha Qual é o déficit atual do Poder Judiciário no Paraná?
Zappa Deve estar algo em torno de R$ 10 milhões.
Folha - O senhor considera uma imprudência a compra do Fórum?
Zappa Não considero uma imprudência, pois Cascavel é uma comarca grande e em expansão. O Fórum lá existente já estava pequeno. Então foi adquirido um prédio inteiro, pronto, mas agora ele tem de ser pago.
Folha E como encontrar recursos para efetuar este pagamento?
Zappa: Estes recursos já foram programados para serem pagos em prestações mensais. Só que foi paga apenas a primeira, e o restante não.
Folha - Desde quando não são pagas as parcelas?
Zappa - Já deve fazer uns 5 ou 6 meses.
Folha - Como o senhor vê hoje a distribuição dos recursos orçamentários? O poder Judiciário recebe o quinhão que lhe é devido?
Zappa - Isto é relativo, pois o orçamento é algo muito complicado. Pelo que estou sabendo, as transmissões do Estado não estão incluídas nas percentagens que o poder Judiciário recebe. Assim, a União repassa estes percentuais para o Estado, mas eles não são repassados para o Judiciário.
Folha Estes percentuais estão previstos e não são repassados, ou não estão previstos?
Zappa: Há uma previsão de cerca de 7 a 8% do orçamento, só que esta quantia não é suficiente. Então, todo ano, o Tribunal da Justiça entra com uma medida no Supremo Tribunal Federal. E o Supremo tem dito que essa limitação é ilegal. Eu só vou saber como agir depois que assumir o cargo e fizer os devidos remanejamentos, para tentar cobrir as dívidas. Eu vou conversar com o governador para ver o que ele pode passar a mais.
Folha - Como pagar o déficit existente?
Zappa - Claro que talvez haja alguma despesa que possa ser alterada. Nós temos uma esperança muito grande no Fundo de Reequipamento do Judiciário, o Funrejus. É onde se concentram as arrecadações das taxas judiciárias, entre outras. Então, o Funrejus, como já existe em outros Estados, é uma maneira de conseguir dinheiro. O Paraná adotou este sistema e ano passado entrou em vigor e nós tivemos mais duas leis para complementar esse fundo. Mas infelizmente a Assembléia ainda não votou.
Folha - Então ele ainda não está funcionando?
Zappa Apenas em parte. Já está entrando dinheiro, mas ainda não em sua plenitude. E este valor vai ser aplicado da melhor forma possível. Pois, se formos contar apenas com a arrecadação transferida pelo Estado não teria condições.
Folha - Nesses momentos de crise, o senhor acha que as pessoas procuram mais a Justiça?
Zappa - Eu acho que sim.
Folha - Nós publicamos recentemente um reportagem que mostrava que os números de processos, especialmente cíveis e criminais, diminuíram de 1997 para 1998. Foi um levantamento da Associação dos Magistrados. E a conclusão da associação é que as pessoas não têm dinheiro para procurar a Justiça.
Zappa - Pode ser. Porque a Justiça, atualmente, está cara. Quando eu era corregedor, havia um sistema que, se fosse o caso, as custas eram modificadas. Havia inflação e a Corregedoria fazia uma tabela com reajustes. Aí, a OAB, seção do Paraná, entendeu que essa modificação era inconstitucional. E entrou com uma medida. O Supremo deu uma liminar e entendeu que era irregular o procedimento da Corregedoria.
Folha - Agora tem uma lei na Assembléia.
Zappa - O Tribunal apresentou um projeto, mas a Assembléia, por interesses outros, mexeu, mexeu... Retiraram o projeto, fizeram um substitutivo e a coisa piorou muito mais. Foi horrível. E já entrou em vigor. Aumentou tudo.
Folha - Quer dizer que, cada vez menos, a população pode contar com o Judiciário?
Zappa - Não. Depende. As ações de maior valor são mais difíceis porque houve o aumento. Mas continuam os Juizados Especiais, que são de graça.
Folha - O que chamou a atenção é que até pessoas de classe média estão deixando de fazer divórcios legalmente porque não podem arcar com as custas.
Zappa - É verdade. É certo também que as pessoas mais pobres podem obter isenção de custas na Vara da Família. Agora, têm pessoas que não são pobres e têm dificuldades para pagar.
Folha - O senhor já teve alguma conversa com o deputado Aníbal Khury (presidente da Assembléia Legislativa) ou com o governador Jaime Lerner, informalmente?
Zappa - A respeito do exercício do mandato, não. Eu conversei com o deputado Aníbal logo depois que fui eleito, sobre questões de cargos e tal. A Assembléia votou uma lei criando cargos e cartórios, e o Tribunal entendeu, por unanimidade de seus membros, que a lei é ilegal - embora tenha sido sancionada pelo governador - porque faltava a iniciativa do poder Judiciário. O Judiciário, em relação à lei, tem uma única coisa, que é o poder de iniciativa. Portanto, nós entendemos que neste caso da criação dos cartórios, o Tribunal não tinha tido a iniciativa, então suspendeu-se a lei.
Folha - Mesmo não tendo partido do Judiciário, o senhor acha que há necessidade de criação de cartórios?
Zappa - Com relação ao cargo de juiz, Curitiba, por exemplo, está com uma falta muito grande. Precisamos minorá-la. Com a nova Constituição, o serviço do poder Judiciário aumentou demais. Parece que o povo descobriu que tem direitos e esse direito deve ser resolvido e equacionado pelo poder Judiciário. Mas é claro que quem deve saber exatamente quantos juízes são necessários é o poder Judiciário e nenhum outro.
Folha E com relação aos cartórios extra-judiciais. O senhor é favorável à permuta?
Zappa - Em princípio eu sou contra. A Constituição Federal e a Lei Federal que estabelece a criação dos cartórios não previu a permuta. E não previu porque os cartórios devem preenchidos mediante concurso de ingresso e concurso de remoção. Só que para que haja o concurso de remoção, é preciso que se chamem os interessados. Normalmente quem tiver interesse naquele cartório, se inscreve. Mas quando é permuta, só podem ser dois. Então não há possibilidade de se fazer uma permuta legalmente.
Folha - O senhor, quando corregedor, fez um projeto que foi para a Assembléia, mas ficou três anos parado e foi emendado.
Zappa - No final do ano passado ele foi emendado, porque criou-se a permuta e colocou-se um artigo que diz que qualquer pessoa que já tenha feito concurso público em qualquer tempo, para qualquer cargo, pode se habilitar. Entendo que este artigo e a permuta são inconstitucionais. Mas a lei está boa.
Folha - Então, se duas pessoas, por exemplo, fizerem um pedido de permuta, o senhor vai indeferir?
Zappa - Em princípio, estes pedidos são eventuais. E eu teria que encaminhar para a Corregedoria para ela se manifestar e depois levar para o Conselho de Magistratura, que é quem avalia este aspecto. E o Conselho de Magistratura iria deliberar sobre a legalidade, em primeiro lugar, e se há possibilidade.
Folha - Mas a permuta não seria um artifício para manter um cartório vitalício na mão de um mesmo grupo? Não abre uma brecha?
Zappa - Eu entendo, e o Tribunal já entendeu aqui em decisões que tomou, que permuta não existe em matéria de cartório extra-judicial. No cartório judicial, a lei estadual admite. Mas no caso do foro judicial temos que examinar a respeito juntamente com o Conselho da Magistratura. Eu sei que, mês passado (dezembro), houve uma permuta de um cartório judicial em Curitiba. Entendeu-se que nesse caso, legalmente era possível. Mas pode ser que o Tribunal entenda que não é interessante. Seria, digamos, legal, mas não seria conveniente, porque acho que deve haver possibilidade para que qualquer pessoa possa exercer um cargo de tabelião, ou de escrivão, mediante concurso ou remoção.
Folha - Há cerca de duas semanas, a OAB denunciou que algumas nomeações feitas nas três últimas comarcas criadas - Cantagalo, Manoel Ribas e Fazenda Rio Grande - foram feitas usando critérios políticos. É possível rever isso?
Zappa - Essas nomeações foram em caráter precário, enquanto não se providencia remoção ou concurso.
Folha - O senhor pretende agilizar isso?
Zappa: O que quero dizer é que o Código Judiciário prevê a remoção e o ingresso. Se o Tribunal entender que deve haver concurso, haverá concurso. Se entender que deve ser feita a remoção, em primeiro lugar, faz-se a remoção. Estou dependendo do que o Conselho da Magistratura deliberar. Se houver pedidos de remoção, faz-se a remoção. Esgotados os pedidos, teria que se abrir concurso.
Folha - Mas uma denúncia como essa da OAB, não pega mal para o poder Judiciário permitir esse tipo de coisa?
Zappa - Sim. Mas, veja bem, não estou dizendo se está certo ou errado, mas que foi a maneira que a presidência atual (que deixa o cargo hoje) encontrou para preencher enquanto não se tomam as providências necessárias. As comarcas são instaladas e têm de funcionar. Agora, se o critério foi o melhor ou não...
Folha: Mas se a comarca foi instalada, já não deveria estar prevista a nomeação? Ninguém foi pego de surpresa, não?
Zappa - Não, ninguém foi pego de surpresa.
Folha - Quando se assume um cargo como o seu, se pressupõe um relacionamento frequente entre os poderes. O seu estilo é de conversar com os outros poderes, assim como foi o desembargador Henrique Lenz Cesar? Ou o seu estilo seria mais técnico?
Zappa - Eu acho que vai haver um relacionamento importante, cordial, não só entre os poderes, como entre os próprios membros do poder. Agora, os poderes são independentes e harmônicos entre si, de acordo com a Constituição. Então deve haver um equilíbrio. Eventualmente, pode ser que o poder Judiciário tenha até de constituir uma lei votada pelo Legislativo e sancionada pelo Executivo. Porque alguém entrou com uma medida judicial e o Judiciário entendeu que teria de modificar.
Folha: Isto poderia causar problemas entre os poderes?
Zappa - Isto não significa que estejamos desprestigiando o Executivo ou o Legislativo. É uma questão até constitucional. O Legislativo elabora as leis, o Executivo executa a política e o Judiciário examina a constitucionalidade e a viabilidade. Se houver uma lei que alguém entenda que está prejudicando e que não esteja de acordo com a Constituição, ela terá de ser modificada. Cada qual com a sua atribuição.
Folha: O senhor acha que a pessoa que ocupa o cargo de presidente do Tribunal de Justiça deve ser mais política ou mais técnica, tentando preservar o poder?
Zappa - O juiz e o desembargador são técnicos, eles aplicam a lei. Mas quando o desembargador assume um cargo de direção, como de presidente do TJ, ele tem de atender não só a própria política do Judiciário, como também o entendimento entre os poderes. Tem de exercer um cargo político. Presidente do TJ é um cargo político.
Folha - Como o senhor avalia que os três poderes estão se relacionando hoje?
Zappa - O que eu tenho sabido é que este relacionamento é muito bom. Entre os poderes e os próprios membros dos poderes. Tem sido normal. E eu espero manter essa normalidade e o entendimento direto com os demais poderes.
Folha - Como o senhor se auto-avaliaria? Para a gente sentir como vão ser os dois próximos anos do Tribunal?
Zappa - O que eu tenho a dizer é o seguinte: o juiz é um escravo da lei. Ele tem de cumprir a lei, fazer a lei. Se a lei diz que pode, pode. Se não pode, não pode e acabou.
Folha - Mas o senhor mesmo falou que a Constituição Federal não prevê a permuta. Então como pode o Conselho deliberar, se já está na Constituição?
Zappa - Há quem entenda que, desde que a Constituição não preveja, ela não poderá ser aplicada. Só que o jurista tem de interpretar a lei. É uma maneira indireta de dizer que não pode. A lei não diz diretamente, mas temos de interpretar a lei e entender que se existe a remoção, não pode existir permuta.
Folha - O que o senhor acha que precisa melhorar no poder Judiciário do Paraná?
Zappa - Precisa mudar muita coisa, acho que há muita coisa a acertar. Sempre é preciso um ajuste para melhorar. A começar por um fato: o poder Judiciário é um ilustre desconhecido. A maioria das pessoas não o conhece.
Folha - E o poder Judiciário está aberto a essa massa popular?
Zappa - Eu acho que está começando. Os Juizados Especiais são uma saída extraordinária. Dizem que é a Justiça do povo, a Justiça do pobre. Até um certo limite de valor, o povo resolve suas questões sem gastar nada. Não estou bem ao par, mas dizem que mais de 80% dos problemas são resolvidos nas audiências de conciliação. Então essa é uma Justiça importante, útil.
Folha - E qual é a forma de melhorar a divulgação do poder Judiciário?
Zappa - É dar conhecimento ao povo de seus direitos e como isso deve ser exercido. E através de quem? Principalmente da imprensa.
Folha: O senhor tem um plano específico para o começo de sua gestão?
Zappa - Primeiro preciso ver as contas. Eu sei que as contas estão ruins por causa dessas aquisições desses Fóruns. E ainda há outros problemas. É preciso manter os fóruns. Tem de verificar isso tudo. E estou sabendo que esses valores são bem altos.
Folha - E a Reforma do Poder Judiciário, que está sendo discutida no Congresso?
Zappa - O que muitas vezes ocorre, é que querem controlar o poder Judiciário. Muitas vezes, sai uma medida qualquer no Supremo, aí aparece um deputado e diz precisamos acabar com isso. Estou usando apenas um exemplo de âmbito nacional, onde são feitas as leis que se aplicam ao Judiciário. Às vezes dizem o Supremo não poderia ter feito isso. Precisamos controlar. Controlar o quê? O juiz ingressa na carreira por concurso, onde está presente um representante da OAB; quando julga, tem dois advogados a seu lado, que fiscalizam o juiz; as contas são controladas pelo Tribunal de Contas. Então, há fiscalização de todos os lados. O que mais se quer fiscalizar em relação ao Judiciário? Controlar a decisão do juiz? Impossível. Acaba com o Judiciário.
O desembargador Sydney Zappa assume hoje a presidência do Tribunal de Justiça do Paraná, em Curitiba, com alguns problemas para resolver. Um déficit de R$ 10 milhões, contas em atraso e uma Justiça que, como ele mesmo reconhece, está cara demais. Ele lembra que quando corregedor apresentou um projeto para regulamentar a cobrança, mas a Assembléia, por interesses outros, mexeu, mexeu... Retiraram o projeto, fizeram um substitutivo e a coisa piorou muito mais. Foi horrível. Aumentou tudo.
Zappa diz querer tornar o Judiciário mais conhecido da população, mas admite que os altos custos estão afastando muita gente. Aliás, a necessidade de divulgar mais sobre o poder Judiciário será um dos pontos de destaque de seu discurso de posse, às 17 horas.
O novo presidente do TJ é contra a permuta entre cartórios extra-judiciais e fica indignado quando fala sobre ingerências externas e em tentativas de controlar o poder Judiciário, especialmente
vindas do Legislativo.





