A cúpula governista do PMDB está preparando uma manobra para não correr nenhum risco de derrota na convenção nacional que decidirá, no próximo domingo, se o partido vai lançar candidato ao Palácio do Planalto ou se apoiará a reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso. Para se certificar de que têm pelo menos 349 dos 696 votos da convenção - o mínimo necessário para garantir a vitória - os governistas estão articulando a inversão da pauta do encontro, resumida em dois itens: a reeleição de Fernando Henrique e o novo comando nacional do PMDB.
Em vez de começar pela reeleição, como ficara acertado entre os dirigentes rebeldes e governistas, os aliados do Planalto querem votar primeiro a renovação da comissão executiva nacional. A inversão da pauta vai além da pressa de livrar os governistas do comando rebelde do deputado Paes de Andrade (CE). Mais do que fazer do líder do partido no Senado, Jáder Barbalho (PA), o novo presidente do PMDB, o que os aliados do Planalto querem mesmo é usar a decisão de renovar a executiva como teste de votação do apoio à reeleição.
A iniciativa dos governistas é compreensível. Afinal, o voto é secreto e as convenções do PMDB sempre reservam surpresas desagradáveis para o governo, como ocorreu há um ano, quando os convencionais rejeitaram o apoio à reeleição de Fernando Henrique antes de escolhido o novo presidente do Senado. Naquela ocasião, os peemedebistas se movimentaram na tentativa de garantir a neutralidade do governo federal na disputa entre o PFL do senador Antônio Carlos Magalhães (BA) e o PMDB do senador Íris Rezende (GO), que brigavam pelo cargo de presidente do Senado.
‘‘Não aceito golpe nem a invasão de forças estranhas ao partido na convenção’’, protesta o deputado Paes de Andrade, ao garantir que a pauta não será modificada até porque foi definida, por unanimidade, na última reunião da executiva nacional. ‘‘Estão habituados à prática da violência e querem fugir do voto secreto com uma manobra’’, acusa Paes. Segundo o deputado, os governistas vão tentar repetir as irregularidades praticadas na reunião do conselho político do PMDB que aprovou por 40 votos a zero o apoio à reeleição. ‘‘Eles também tentaram manobrar pelo voto aberto no conselho e saíram derrotados’’, lembrou.
Para chegarem fortalecidos à convenção, os governistas já estão colhendo assinaturas em todos os Estados em favor da inversão da pauta. Embora não se trate de uma declaração expressa de apoio à reeleição de Fernando Henrique, os aliados do Planalto argumentam que todos os signatários apóiam a reeleição. Afinal, os opositores de Paes no PMDB são exatamente os que recusam a candidatura própria do partido ao Planalto, defendida pelos rebeldes.
‘‘A lista fortalece a tese da reeleição, com as pessoas mostrando a cara no apoio ao presidente Fernando Henrique, mas não substitui a convenção que será decidida no voto’’, diz o deputado Germano Rigotto (PMDB-RS), em defesa do método de trabalho dos governistas. O método escolhido pressupõe a assinatura dos convencionais de cada Estado, ao lado da relação impressa dos nomes. Um constrangimento na opinião de alguns aliados do próprio governo, que se recusam a seguir à risca o modelo proposto pela cúpula governista do partido.
‘‘Essa lista tem de ser voluntária’’, defende o presidente do PMDB gaúcho, deputado Odacir Klein, que se recusa a coletar assinaturas num papel em que os nomes dos 45 convencionais do Estado já venham impressos. ‘‘No Rio Grande do Sul temos a serenidade de quem tem os votos e podemos pegar o apoio de todos os que desejarem a inversão da pauta sem que ninguém seja compelido a assinar o documento’’, argumenta Klein.
Em conversa com os correligionários, o deputado gaúcho tem argumentado que o modelo da lista que a cúpula governista enviou para os Estados é uma tentativa de ‘‘contragolpe’’. Tudo para combater o golpe que o próprio Paes patrocinara, ao articular a prorrogação de seu mandato na presidência do partido para comandar o processo eleitoral sem isenção. Argumentam os governistas que Paes é presidente apenas da ala rebelde que defende a candidatura própria. Os gaúchos se julgam com autoridade para criticar por uma razão: não aceitaram a prorrogação dos mandatos dos dirigentes regionais apoiada por Paes. Tanto que fizeram nova eleição e escolheram Klein para comandar o partido durante a campanha eleitoral.

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