Voto religioso mostra peso eleitoral
São Paulo - Durante a monarquia, Igreja e Estado estiveram oficialmente juntas. A Constituição da República, de 1891, instituiu a separação e eliminou muitos privilégios da Igreja. Não por muito tempo. Já na Constituinte de 1934, graças ao lobby da Liga Eleitoral Católica, muitos desses privilégios foram recuperados, como recursos públicos para escolas e hospitais pertencentes à Igreja, recorda o sociólogo Ricardo Mariano.
Até hoje, muito da influência buscada pela Igreja no governo e no Congresso é motivada por esses interesses mundanos, aponta Maria das Dores Campos Machado, pesquisadora da Universidade Federal do Rio: recursos do governo para suas entidades de assistência social. Isso porque, no Brasil, muito pouco dinheiro da iniciativa privada é destinado a essas obras, e o grosso vem mesmo do Estado. Concessões de rádio e TV também são febrilmente cobiçadas pelas igrejas, e trocadas por votações importantes para o governo no Congresso.
Os parlamentares religiosos votam sem alinhamento ideológico, de acordo com essas barganhas. Eles só agem como bancada quando há uma votação ligada a seus princípios morais, como aborto, por exemplo. De resto, ''atuam como qualquer outro político, buscando poder e influência'', observa Maria das Dores, autora dos livros ''Os Votos de Deus'' e ''Política e Religião''.
Os analistas acreditam que o voto em Marina Silva, do PV, no primeiro turno tenha servido para os religiosos mostrarem o seu peso eleitoral e assim impor suas agendas no segundo turno. Teria sido um voto estratégico, mais ou menos consciente.
Maria das Dores observa que as igrejas funcionam como formadoras de líderes, que lá aprendem a falar em público e a se articular politicamente, nas intensas disputas internas pelo poder. Para muitos pentecostais pobres, a igreja e o pastor são a principal fonte de informação. ''Não é que eles façam tudo o que o pastor manda, mas é na igreja que se informam e formam sua opinião.'' Inclusive sobre em quem votar. (Agência Estado)





