Voto feminino completa 73 anos
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sábado, 01 de novembro de 2003
Fernanda Bressan<br> Reportagem Local 
''Enquanto existir homem, eu acho que ele é que tem que ser presidente. Para a mulher isso é difícil''. A opinião é do aposentado Armindo Fernando da Silva que aos 71 anos mostra-se incrédulo frente à ascensão feminina no comando. Entre os mais jovens, a posição não é tão radical. O músico Tiago Alcides Góis, 18 anos, confessa que votaria em uma mulher para o cargo mais poderoso de nosso País, dependendo, claro, de suas propostas.
Também pudera. Elas já conquistaram espaço e somam hoje duas governadoras, oito senadoras, 43 deputadas federais e 133 estaduais. Fora as centenas de prefeitas e vereadoras espalhadas pelo País. Mas nem sempre foi assim. Aliás, houve um tempo em que a mulher não tinha sequer direito ao voto. Falando nisso, alguém se lembra desde quando elas adquiriram esse direito?
As irmãs Elvira e Joana Calderon, 72 e 68 anos respectivamente, não se recordam. ''Que eu me lembro, eu voto desde a década de 60'', diz Elvira. A estudante Daniele Kelly da Cunha, que tem apenas 16 anos mas já tirou seu título de eleitora, também confessa que ''não faz a menor idéia''. A aposentada Lourdes Bonezzi, 42 anos, arrisca um chute: ''não foi na década de 60?''. A telefonista Josiane Agostine, 27 anos, também palpita. ''Foi lá por 1970''.
Vários ''não me lembro'' e ''não sei'' depois, eis que a professora Erli Pinheiro, 49 anos, questiona: ''Não foi em 1934?''. Pois bem, ela mais ou menos acertou. Mais ou menos porque nem a história confirma ao certo esse momento. Oficialmente, todas adquiriram o direito após a promulgação da Constituição de 1934, mas, no Rio Grande do Norte, a cidade de Lages elegeu a primeira prefeita do País, Alzira Soriano, em 1929. O Código Eleitoral de 1932 já garantia o direito ao voto a algumas mulheres que possuiam renda ou àquelas casadas que tinham a autorização do marido.
O responsável por essas mudanças foi Getúlio Vargas, que assumiu o governo após um golpe de estado no dia 3 de novembro de 1930, há exatos 73 anos, e era partidário da causa. Por isso, é possível encontrar essa data como o marco para o início do voto feminino no Brasil em alguns livros e na internet.
Aula de história à parte, todos os entrevistados apontaram que não imaginam mais uma realidade em que a mulher não vote. ''Hoje isso não faz mais sentido'', argumenta Josiane. E até seo Armindo, que jamais votou em uma mulher para qualquer cargo político, concorda com o voto delas. ''Eu acho legal porque do jeito que as coisas estão, precisa dar uma mudada'', argumenta.
As mulheres representam hoje 51,5% do eleitorado. No Paraná, contabilizam 3.303.234 votos e, em Londrina, cerca de 160 mil. Tamanha força é decisiva na resultado das eleições e, por isso, muitos políticos se preocupam com essa ala do eleitorado em suas campanhas. Preocupação que se fundamenta na visão crítica de muitas delas.
A estudante Carla Rafaeli, 17 anos, ainda não votou mais já tirou seu título de eleitora. ''Está difícil escolher candidato'', observa. Lourdes salienta que a mulher tem o dom de enxergar o que o homem não vê. ''Seria o máximo ter uma mulher como presidente'', afirma. Ela conta que nas últimas eleições votou em duas mulheres. ''Eu procuro ver bem o candidato e quando tenho a possibilidade de votar em mulher, eu voto'', conta.
Divergências e desconhecimento a parte, o voto feminino já faz parte do cotidiano de todos, apesar do dia de sua efetivação passar despercebido e sem qualquer menção de comemoração ou lembrança.


