Brasília
A repercussão da crise mundial das bolsas sobre o mercado brasileiro, num momento em que o País já vivia o clima eleitoral do próximo ano, reverteu radicalmente a posição do governo brasileiro. Hoje o presidente Fernando Henrique Cardoso está governando para o mercado externo. E o Congresso, legislando para o mercado externo. A próxima quarta-feira, quando serão votadas, no plenário da Câmara, a reforma administrativa e, na Comissão de Constituição e Justiça, a reforma da Previdência, está sendo considerado o dia definitivo da crise, que se prolonga por duas semanas. ‘‘A nossa batalha de Waterloo é dia 19’’, afirmou o ministro da Coordenação Política, Luiz Carlos Santos. ‘‘Se perdermos, as bolsas despencam; se ganharmos, na quinta-feira elas abrem estourando.’’
‘‘A questão não é contabilizar os ganhos das medidas fiscais e das reformas, mas dar ao mercado externo uma sinalização de que o País é capaz de promover suas reformas’’, disse um ministro. A aprovação das reformas é a garantia que o governo quer dar ao capital estrangeiro ‘‘volátil’’, para não sair do País, de que a economia está sob controle. As reformas são a sinalização de que ele mantém o controle político da situação.
Para o público interno, o aceno que tem sido feito pelo governo é de prazo um pouco maior: a perspectiva de que, se o País sair dessa sem ter sido ferido mortalmente por um ataque especulativo ao Real - escapar, portanto, de ser a ‘‘bola da vez’’ de uma saída articulada de capital especulativo - poderá tornar-se um pólo de atração dos capitais que ficaram soltos, após a queda dos ‘‘tigres asiáticos’’.
‘‘Os remédios adotados foram certos, as providêndias rápidas e a economia reagiu bem a elas’’, defendeu o vice-presidente Marco Maciel. Em favor do País, aponta a estabilidade econômica, a estabilidade política e o êxito do Mercosul, onde o Brasil é peça fundamental. ‘‘Temos ainda uma grande reserva patrimonial’’, contabilizou um ministro, lembrando que o Brasil ainda tem como cacife a privatização das empresas de telecomunicações, das empresas elétricas estaduais e até a Petrobrás. ‘‘Não existem muitos países assim para abrigar os capitais que ficaram a descoberto.’’
Segundo o vice-presidente Marco Maciel, passado o incêndio o governo investirá ‘‘dramaticamente’’ nas reformas patrimoniais, que seriam a conclusão do programa de estabilização econômica. ‘‘É preciso estabelecer o equilíbrio das contas públicas e aumentar a taxa de poupança interna’’, afirmou. Aí estão incluídas, como tarefa já feita, as reformas em pauta - administrativa e previdenciária - e algumas leis que vêm sendo aprovadas pelo Congresso, como as regulamentações das reformas econômicas, o Sistema Financeiro Integrado (SFI), as leis de propriedade industrial e de concessões públicas.
Na agenda, está a conclusão do projeto de previdência complementar que vem sendo elaborado pelo economista André Lara Rezende, segundo uma fonte do governo ‘‘a verdadeira reforma da Previdência.’’ A proposta do economista já está pronta, na fase de exame pelo Palácio do Planalto.

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