Brasília - A votação do salário mínimo pelo Senado, iniciada na tarde de ontem, encerra uma fase de espera imposta pela presidente Dilma Rousseff para dar andamento às nomeações do segundo escalão do governo federal. Os líderes da base aliada acreditam que a partir da próxima semana pendências sobre o tema começarão a ser resolvidas. Além disso, dissidentes da própria base querem votar o fim do fator previdenciário, que seria uma nova frente de batalha para o Planalto. O Senado não havia concluído a votação até o fechamento desta edição, mas a expectativa é que o projeto do governo seria aprovado com folga.
PT e PMDB travaram no Congresso uma batalha para ver quem é mais leal a Dilma e agora querem ver seu esforço reconhecido pela presidente. Na Câmara, os peemedebistas deram 100% dos votos ao governo, enquanto o PT teve dissidências. No Senado, o PT conseguiu converter o dissidente Paulo Paim (RS) e o líder Humberto Costa (PE) dava como certo o apoio de todos os petistas ao mínimo de R$ 545.
O PMDB busca cargos no setor elétrico e em bancos públicos. Os nomes do ex-ministro Geddel Vieira Lima e do ex-governador José Maranhão estão na mesa para cargos de diretoria da Caixa Econômica Federal. Orlando Pessuti, ex-governador do Paraná, pode ser encaixado na diretoria de governo do Banco do Brasil.
O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), trabalha para ter a frente da Eletronorte o aliado José Antônio Muniz Lopes, ex-presidente da Eletrobras. O PT, à frente da maior parte do ministério, quer manter sua preponderância no segundo escalão. O foco do partido são áreas que possam trazer dividendos nas eleições municipais do próximo ano.
Derrotado nas eleições para o Senado, o ex-deputado Vignatti, por exemplo, pode ficar com a presidência da Eletrosul. Outros partidos também pretendem fazer valer seus desejos. O PDT, que precisou conter uma rebelião na Câmara para ficar ao lado do governo, tentará agora emplacar o ex-senador Osmar Dias na vice-presidência de agronegócio do Banco do Brasil.
Fator previdenciário
A compensação aos aliados virá também em ''prestígio político''. Paulo Paim (PT-RS), que ameaçava votar contra o governo, foi chamado ao Palácio do Planalto para conversar com a presidente. Saiu de lá votando a favor dos R$ 545 e dizendo ter uma promessa de debate com o governo de bandeiras de sua campanha, o fim do fator previdenciário e o reajuste de aposentados que ganham acima de um mínimo. O ministro da Previdência, Garibaldi Alves Filho, afirmou hoje que não é possível apenas eliminar o fator. Ele defendeu a discussão de um mecanismo para substituir o modelo atual. Uma das ideias levantadas é definir uma idade mínima para a aposentadoria do INSS. Outro tema na mesa é um projeto que tramita na Câmara trocando o fator por um sistema que leve em conta apenas a idade e o tempo de contribuição do trabalhador. O projeto é relatado por Pepe Vargas (PT-RS) e tem simpatias na base aliada em partidos como PTB, PDT, PSB e PC do B.
Este debate, porém, ainda não está na pauta dos líderes. O petista Humberto Costa (PE) avisou que não houve qualquer condicionante para conseguir o apoio de Paim. Em meio ao cenário de ajuste econômico, dificilmente o governo tentará mexer na Previdência Social. Na tribuna, governistas e oposicionistas repetiram os argumentos usados na Câmara. O único tema que ganhou mais destaque foi a possibilidade de se reajustar o mínimo por decreto até 2015 com base na política aprovada. A oposição protestou: ''Querem acabar com o debate política sobre o salário mínimo'', disse Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP). O líder do governo e relator do projeto, Romero Jucá (PMDB-RR), minimizou as críticas e afirmou que o decreto é apenas um desdobramento da lei e que a prática não retira prerrogativas do Legislativo.
Menos de 100 sindicalistas acompanharam a votação nas galerias do Senado. Eles exibiram cartazes com a inscrição ''R$ 545 não''. Discretos, ensaiaram vaias nos discursos dos governistas, mas ameaçados de serem retirados do local pelo presidente do Senado se contiveram.

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