‘‘Votação da reforma da Previdência
seria uma sinalização do Congresso’’
Arquivo FolhaConfianteParente: ‘‘Na nossa visão esse programa de estabilidade fiscal representará a mudança fundamental que precisamos’’AE - Então, em novembro, já vai ser possível ter uma idéia do horizonte para os juros.
Parente - Sem dúvida. Novembro já vai dar o tom.
AE - Como o Ministério da Fazenda avaliou a reunião do ministro Malan no Senado, na última quinta-feira?
Parente - Diante da dureza de algumas das medidas e olhado-se para o que normalmente se espera da oposição e do governo, achamos que foi muito positivo.
AE - Há agentes econômicos decepcionados pelo fato de o Programa depender basicamente do Congresso, ou seja, o governo não ter controle sobre o que acontecerá com as medidas propostas.
Parente - Não devemos nos sentir frustrados por viver num país democrático. Pelo contrário, sinto-me muito orgulhoso da democracia que temos e do fato de que as medidas que são cruciais para o nosso País passem obrigatoriamente pelo Congresso Nacional. Se em alguns casos demoraram mais do que nós gostaríamos - o caso típico é o da Previdência - na maioria deles o Congresso agiu com muita rapidez. Não tenho qualquer crítica, ao contrário, critico esses que acham que deveríamos nos comportar como se estivéssemos numa republiqueta onde não existem instituições democráticas, onde os assuntos não são discutidos na sua profundidade. Essas pessoas deveriam ver isso como um ponto positivo, até para não influenciar aqueles fora do País que se escudam nesse tipo de avaliação.
AE - Ou seja, influenciam as avaliações lá fora.
Parente - Os que fazem avaliação diferente, apoiam-se na idéia de que seria melhor que o Poder Executivo tudo pudesse, com o que não concordamos. Estamos muito confiantes, muito serenos, sabendo da relevância, da importância do momento, mas dizendo o seguinte: na nossa visão esse programa de estabilidade fiscal, se aprovado, ele de fato representará a mudança fundamental que precisamos nessa área . Sem essa mudança vamos continuar permanentemente com este peso que segura o País, que é a taxa de juros.
AE - Na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), marcado para o dia 11 de novembro, já é possível esperar uma redução dos juros?
Parente - Não fazemos esse tipo de previsão. É fudamental que essa taxa de juros possa baixar o mais rapidamente possível, mas isso não poderá ser feito artificialmente, sem que tenhamos fatos positivos tanto interna quanto externamente.
AE - A aprovação da reforma da Previdência seria um fato?
Parente - Não há dúvida que a aprovação da reforma da Previdência neste mês, pelo Congresso, seria uma sinalização importante. Essa votação, indo bem, ajudará o País não apenas porque ajudará a evitar um colapso completo do sistema previdenciário do Brasil, como ajudará também nessa sequência de sinalizações que são relevantes.
AE - Mesmo assim, o governo prevê uma redução de 1% no Produto Interno Bruto (PIB) no ano que vem. Esse é um sinal custoso, em termos de expectativas.
Parente - Quero deixar bem claro que não é meta do governo a recessão, não é meta do governo crescimento negativo do Produto no ano que vem. O governo quer crescimento, não existe nenhum louco no governo. O presidente Fernando Henrique é um político de carreira, que se pudesse ele estaria fazendo tudo aquilo que as pessoas associam a que seja o bem: aumento de salários, obras a valer. Mas o presidente responsavelmente sabe que se fizer isso produzirá alegria efêmera, uma bolha, com consequência extremamente graves no futuro. O que o governo fez foi mostrar que, considerando a conjuntura internacional e o ritmo da economia hoje, precisaria ser necessariamente precavido e conservador em suas projeções de crescimento, porque isso afeta a receita pública. Se não fôssemos conservadores, teríamos uma previsão de receita acima do que ocorrerá, gerando uma pressão contra o resultado do programa. É muito melhor partir de um ponto de vista conservador ao estimar as receitas para o futuro, e ir melhorando essa percepção ao longo do ano que vem.
AE - Nesse cenário de retração econômica que temos pela frente, é de se esperar que os Estados tenham queda de arrecadação. Nem assim, o valor das parcelas será revisto?
Parente - Não, até porque o pagamento é um porcentual da receita líquida. Se cai a arrecadação, cai também o pagamento da dívida. A retração afeta igualmente as receitas do governo federal. Não existe mais uma entidade no País, chamada governo federal, que é uma fábrica de dinheiro. Precisamos chegar ao tempo em que teremos uma federação verdadeira nesse país, e isso passa por cada um cuidar de si.

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