Vorcaro ordenou devassa na vida de jornalista, diz PF
Mensagens interceptadas revelam que o ex-dono do Banco Master monitorou dados pessoais e sigilosos da colunista Malu Gaspar na tentativa de frear investigações sobre fraudes financeiras
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 02 de julho de 2026
Mensagens interceptadas revelam que o ex-dono do Banco Master monitorou dados pessoais e sigilosos da colunista Malu Gaspar na tentativa de frear investigações sobre fraudes financeiras

Brasília - Mensagens obtidas pela Polícia Federal (PF) nos celulares apreendidos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo dono do Banco Master, revelaram uma intensa campanha de monitoramento e intimidação contra a imprensa, tendo como alvo principal a jornalista Malu Gaspar, colunista do jornal O Globo. Os diálogos, que vieram a público através de relatórios da PF compartilhados pela imprensa, expõem o modus operandi de um grupo criminoso que tentava blindar seus negócios de investigações jornalísticas.
De acordo com informações publicadas pelo portal G1 e pelo jornal O Globo, as conversas ocorreram em abril do ano passado entre Daniel Vorcaro e seu sócio, o publicitário Thiago Miranda. Diante de sucessivas reportagens de Malu Gaspar que revelavam a fragilidade financeira, a falta de liquidez e suspeitas de fraudes no Banco Master, os investigados decidiram iniciar uma devassa na vida pessoal da profissional.
Em uma das mensagens interceptadas, Vorcaro é direto ao traçar o objetivo: "Vamos ter que tentar pegar algo dessa mulher no pessoal". Miranda concorda prontamente e responde: "Exatamente. Ela joga baixo. Vou revirar a vida dela. Alguma coisa vamos achar".
A busca frustrada por podres e a "saída milionária"
Os relatórios apontam que Thiago Miranda realizou um levantamento detalhado sobre dados sigilosos e pessoais da jornalista. Foram levantados históricos de processos judiciais desde 1992, dados de cartórios, placas de veículos, o score bancário de Malu Gaspar e informações sobre seus parentes.
Contudo, a busca por algo que pudesse desabonar a imagem pública da colunista fracassou. Em tom de desabafo nas mensagens, Miranda escreveu a Vorcaro: "Nem multa na CNH dela encontrei. Filhos novos ainda também. Te deixo ciente, vou achar algo".
Como o plano de chantagem e difamação não prosperou, os investigados mudaram de tática e tentaram calar a jornalista por vias financeiras. Conforme revelou o portal UOL, Vorcaro sugeriu uma "proposta milionária" para retirá-la de O Globo, articulando a elaboração de um contrato fictício em um portal de comunicação ligado ao grupo. O documento previa o pagamento de R$ 1,5 milhão em luvas e um salário de R$ 120 mil por mês. Miranda, no entanto, alertou o ex-banqueiro sobre o perfil da profissional: "O problema é que ela não liga para dinheiro".
A investida acabou gerando o efeito oposto. Semanas após a abordagem de contratação, Vorcaro reclamou em uma nova troca de mensagens de que Malu Gaspar e outro colunista do jornal, Lauro Jardim, continuavam publicando informações com ainda mais afinco, chamando-os de "filhas da puta". Irritado, Vorcaro mandou abortar as tratativas financeiras, e Miranda sugeriu retomar a busca por caminhos pessoais, afirmando que "eles não são santos".
Reação e repúdio
Em nota oficial divulgada pelo jornal O Globo, o veículo repudiou veementemente a atitude de Daniel Vorcaro e de seus aliados. A publicação afirmou que a ação criminosa "visava calar a voz da imprensa e revela um modus operandi do grupo criminoso, que já havia ameaçado de ato violento outro colunista do jornal" — fazendo alusão a planos de agressão física que, segundo a PF, Vorcaro também cogitou contra o jornalista Lauro Jardim, que também atua no O Globo.
O caso agora integra o conjunto de provas da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que investiga um grande esquema de fraudes financeiras e cooptação de agentes públicos envolvendo o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB).


Da Redação
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