''Uma pessoa nos enviou uma carta pedindo para não trabalhar nessa eleição, e, de preferência, em nenhuma outra mais''. A frase dita semana passada pelo funcionário de uma das sete zonas eleitorais de Londrina não causa mais estranhamento a quem percorre o Fórum Eleitoral com um mínimo de frequência.
A situação se repete entre uma parcela significativa porém não informada pela Justiça Eleitoral dos 3.720 convocados para trabalhar no dia do pleito. Mesmo assim, há quem garanta não se importar com o dia todo de atividade, a ponto de dispensar a espera da convocação para se tornar voluntário no processo.
Esse é o caso da universitária Michele Ponich Ruzon, de 18 anos. Da propaganda veiculada na TV surgiu o desejo de ser aquilo que boa parte dos amigos de faculdade divergiriam depois. ''Me candidatei para primeira mesária e não contei para ninguém. Meus pais só descobriram quando a Justiça Eleitoral me ligou, ocasião em que descobri que meu irmão tinha feito o mesmo'', contou. Se a idéia encontrou resistência? ''Sim, bastante. Na universidade perguntaram se eu estava louca de perder um domingo todo assim'', riu.
Na opinião de Michele, não há outra explicação para se tornar voluntária em uma atividade preterida por tantos eleitores mais velhos que ela: ''Deve ser um pouco de civismo mesmo. Se a gente não ajudar um pouco, a coisa não anda''. A pedagoga Denise Ruzon, 44, pensa diferente da filha. ''Se eu fosse convocada um dia eu trabalharia. Mas creio que em uma democracia as pessoas deveriam ter a opção de optar, inclusive quanto ao voto'', avaliou.
Pelas estimativas do Fórum Eleitoral, pouco mais de 170 voluntários atuarão nas 930 seções distribuídas em 132 locais de votação da cidade.
Em diversos aspectos em situação diferente à da universitária, o micro-empresário Claudionor Bigattão, 40 anos, em um deles se assemelha bastante à jovem. Um dos presidentes de seção com mais tempo de atuação em eleições em Londrina, Bigattão foi convocado ao longo de 20 anos e só pediu dispensa no pleito de 2002. ''É muito bom servir dessa forma, mas sem ser obrigado. Afinal, que democracia é essa que nos obriga a fazer algo?'', apontou, ele que foi dispensado só depois do terceiro pedido feito à Justiça.
Bigattão garantiu que o motivo da dispensa foi só a obrigatoriedade e admitiu que sente falta de ajudar os companheiros em 10 horas seguidas de trabalho. ''Antigamente era pior. A gente não tinha almoço, e representantes de partido vinham nos oferecer comida sem que pudéssemos aceitar, pois seria crime eleitoral'', recordou, destacando que a urna eletrônica ajudou muito no processo. ''Antes o deficiente visual tinha mais dificuldade e não tinha como ajudá-lo; hoje ele lê as teclas em braile'', ilustrou o ex-presidente de seção. Questionado se aconselharia ou não um voluntário a aderir à atividade, Bigattão é enfático: não se trata de trabalho, mas de uma ''lição de vida''. ''Lição porque é o único momento em que se é igual perante o País: pobre e rico votam e têm de esperar em fila se for necessário. É como se uma vez só eles fossem idênticos'', filosofa.

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