VLADMIR HERZOG - Suicídio detonou processo democrático
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sábado, 15 de outubro de 2005
Janaina Garcia<br> Reportagem Local 
Na História recente do Brasil, o presidente Emílio Garrastazu Médici é apontado como o grande responsável pela abertura política que favoreceu a volta do regime democrático, no lugar daquele tomado em golpe, por militares, no dia 1º de abril de 1964. Na História oral, contada por gente que viveu os horrores de um período dito de exceção mas governado sob a égide das armas e de diversificadas técnicas de tortura , entretanto, foi a morte de um cidadão comum que mudou os rumos do que muitas vezes se ouvia na cela ao lado, mas sem eco na sociedade.
São Paulo, 24 de outubro de 1975. O jornalista Vladimir Herzog, então com 38 anos, casado e pai de um casal de filhos pequenos, é chamado para ''prestar esclarecimentos'' sobre um suposto envolvimento com comunistas que viveriam em território nacional. Vlado nome de batismo, ele que nasceu em Osijek, hoje capital da Eslovência Oriental, em território croata comparece na manhã do dia seguinte às dependências do Doi-Codi, órgão vinculado ao 2º Exército. Na véspera, pedira tempo para concluir os trabalhos que dirigia no jornalismo da TV Cultura, estatal paulista. Apesar de pouco ter militado e de diversas vezes ter criticado a sigla em público, o jornalista era filiado ao antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB).
Na manhã do dia 25, a apresentação. Horas mais tarde, ele é anunciado morto pelo comando do quartel, prostrado de joelhos, pendurado por um cinto no pescoço a uma grade. Na versão oficial, o suposto enforcamento é justificado em uma palavra: ''suicídio''.
Passados 30 anos da morte do colega, o vice-presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Audálio Dantas, lamenta a perda mas atribui a ela o enfraquecimento de um regime endurecido desde 1968 com a instalação do temível Ato Institucinal número 5 (AI-5). À época, Dantas presidia o Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, entidade que primeiro se insurgiu contra o fato e o laudo dos policiais, com denúncias formais à Justiça.
''Foi um marco da nossa História recente, pois Vlado foi a primeira vítima da ditadura que não foi sepultada em silêncio antes dele, outras 38 pessoas haviam sido torturadas e mortas naquelas celas sempre com a justificativa do suicídio'', lembra, fazendo referência implícita não apenas à revolta de setores da intelectualidade e religiosos, como ao próprio sepultamento de Herzog, realizado no dia seguinte à morte no Cemitério Israelita, no Butantã. Conforme a tradição judaica, os suicidas não têm o corpo lavado antes de enterrados nos cantos dos cemitérios uma maneira de recordar do pecado que é retirar a própria vida. Sob as ordens do rabino Henry Sobel, entretanto, o jornalista ficou no centro do cemitério, com todas as honras da religião. ''Este gesto, para nós, teve uma carga muito simbólica de que não havia ocorrido suicídio. Um dos religiosos nos disse que, ao lavar o corpo, constatou inúmeros sinais de tortura''.
Dantas destaca que o sindicato havia protestado em outras situações de prisão e tortura mas o choque, afirma, foi maior com uma vítima que não foi levada à força: se apresentou. ''O positivo disso tudo é que não apenas o regime foi ficando exposto em suas atrocidades e se enfraquecendo, como muitos veículos da época foram criando coragem de se rebelar à situação'', analisa.
Se na imprensa a percepção e a forma de agir apresentavam sinais de mudança, na classe média, pondera o jornalista, a aceitação era, tal qual o lema de Geisel, gradual e lenta. ''Havia aquela tranquilidade superficial em torno do chamado milagre econômico. Era difícil para as pessoas dissociarem aquela velha história do 'é tudo comunista' do que acontecia de verdade''.
A ''desmoralização'' do regime, como qualifica o ex-sindicalista, foi reforçada pelo ato ecumênico realizado na Catedral de São Paulo, na Praça da Sé, ao qual compareceram mais de 8 mil participantes. ''Havia 383 barreiras policiais para impedir o acesso; estávamos quase cercados, mas se esqueceram do metrô. Houve momentos em que pensávamos que aconteceria uma chacina se a manifestação se exaltasse era tudo o que a linha dura queria. Mas tudo transcorreu normalmente'', lembrou.
Para justificar a crença de que a morte de Herzog fortaleceu a abertura democrática, Dantas cita movimentos sociais surgidos poucos anos depois. ''Os movimentos sindicais na região do ABC são exemplos disso. Enfim, o operário ia perdendo o cabresto assim como a opinião pública.''
A Justiça admitiu a culpa da União na morte do jornalista, pela primeira vez, em outubro de 1978. Quase dez anos depois, em 1987, decidiu-se que a família dele receberia uma indenização, a qual foi paga somente no final do segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB).®MDBO¯


