VLADMIR HERZOG - O aparte que enfraqueceu a linha dura
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sábado, 15 de outubro de 2005
Janaina Garcia<br> Reportagem Local 
Os livros de história não citam o fato, tampouco a imprensa da época divulgou qualquer coisa a respeito. Habitual nas discurseiras políticas em plenário, a figura do aparte concedido ao colega desempenhou um papel diferente há 30 anos, no Senado Federal, nas palavras do então senador Francisco Leite Chaves, eleito em 1974 pelo Paraná e integrante do Movimento Democrático Brasileiro (MDB, rival da majoritária Aliança Renovadora Nacional, a Arena).
Sob o regime militar presidido à época por Emílio Garrastazu Médici, o País parava perplexo ante a notícia da morte do jornalista da TV Cultura Vladimir Herzog, o Vlado, nos porões do Doi Codi, localizado no bairro Paraíso (zona sudeste de São paulo). Herzog prestaria esclarecimentos sobre sua atividade política na noite do dia 24, mas seu corpo foi apresentado pelas autoridades à imprensa, no dia seguinte, pendurado numa grade por um cinto no pescoço. Versão oficial: ''suicídio''.
O tom de indignação que obteve a repercussão do fato na sociedade encontrou coro em poucos setores das esferas do Poder. Uma dessas manifestações ocorreu no aparte de Leite Chaves ao senador paulista Franco Montoro. Apesar de relativamente curta, a declaração gerou mal estar entre a Casa e a alta cúpula do Governo e quase provocou a cassação do paranaense. Motivo? A comparação do Exército Brasileiro à polícia especial do ditador nazista Adolph Hitler, a ''SS'', em um movimento de repressão. ''É ele (Exército Nacional) uma organização muito séria; tem que merecer o respeito do País (...); ele tem que ser intocável. Não se pode colocar uma corporação de desígnios tão elevados num movimento de repressão. Quando Hitler praticava seus ignominiosos crimes não usava o Exército; para tanto criou-se a ''SS'', vestindo-a de negro, para não comprometer as suas corporações'', diz trechos do aparte polêmico.
Com residência fixa em Brasília (DF), onde atualmente mantém um escritório de advocacia, Chaves conversou com a Folha por telefone e em uma das visitas quase quinzenais que faz a Londrina, onde é dono do shopping Com Tour. Aos 76 anos, o advogado piauiense relatou que o próprio ministro da Justiça da época, Armando Falcão, cuidou pessoalmente de proibir a divulgação do aparte com censuras por telefone à grande imprensa do País. A estratégia deu certo em parte. ''Não se sabe como, mas o aparte foi publicado no Diário do Congresso de 29 de outubro daquele ano. Foi um rebuliço tão grande que a Mesa Executiva mandou recolher o material, algo inédito na história do Legislativo'', lembra o ex-senador.
A pressão pela comparação ''absurda'', na visão dos governistas, fez com que Leite Chaves apresentasse uma retratação em Plenário. ''Ou fazia isso, ou pediam minha cassação e em seguida fechavam o Congresso. Demonstrar de certa forma essa humilhação agradaria à linha dura do regime, mas ao mesmo tempo fortaleceria o presidente Geisel'', afirma. Essa tentativa de poupar o presidente, explica ele, tinha por base os boatos então crescentes de um ''golpe dentro do golpe'' que seria promovido pelo genertal Sérgio Frota, ministro de Exército. Frota e o grupo que liderava não viam com bons olhos o lema da abertura ''lenta, gradual e segura'' de Geisel rumo ao processo de redemocratização. Nesse sentido, o ex-senador acredita ter dado uma contribuição importante para o enfraquecimento do governo militar.
''O ex-presidente Castelo Branco já havia sido substituído por um representante da linha-dura, que foi o marechal Arthur da Costa e Silva (um dos principais articuladores do golpe, em 1964). Se Frota assumisse, o rumo teria sido muito semelhante ao daqueles primeiros anos'', analisa.
Para Leite Chaves, o fortalecimento de Geisel àquela altura debilitaria a pressão de Frota, ''que a todo custo pretendia acobertar o general Ednard Dávila, comandante do 2º Exército, em cuja jurisdição se dera a morte do Herzog''. Cerca de três meses depois do episódio com o jornalista, o presidente da abertura teria apoio do Congresso para demitir sumariamente o general: no quartel e em circunstâncias semelhantes às de Vlado, apareceria morto também o operário Manuel Fiel Filho. ''Creio que essa foi minha maior contribuição à quebra do sistema, à revogação do AI-5'', conclui três décadas depois o advogado, em referência ao Ato Institucional nº 5, baixado em 1968 por Costa e Silva, de caráter bastante repressor e em vigência até aquele período.


