O calor era forte, mas ínfimo ante a sensação que pairava no ar carregado do velório: qual jornalista seria o próximo? É essa uma das imagens mais marcantes guardadas na memória da repórter fotográfica Elvira Alegre, de 49 anos, 31 deles dedicados à profissão.
As fotos de Elvira vão integrar a exposição que acontece em São Paulo no próximo dia 18, na sede do Sindicato dos Jornalistas do Estado, como parte das homenagens aos 30 anos de morte do jornalista Vladimir Herzog, o Vlado. A londrinense tem em mãos um material que não apenas ficou sob censura durante dez anos, como também é o único na história do país: são imagens captadas no velório do jornalista em uma sala do Hospital Albert Einstein, no ambiente que ela descreve em poucas palavras: ''Foi terrível, chocante demais''.
Na ocasião da morte de Vlado, Elvira estava em São Paulo há sete meses. Ela havia saído de Londrina em abril de 1974 no grupo volumoso de jornalistas que deixou o jornal Panorama, então pertencente ao empresário Paulo Pimentel. Na capital paulista, trabalhou com outros dissidentes do periódico de Londrina no jornal eX, de linha editorial irônica e de oposição aos militares. ''Foi o primeiro jornal a publicar que a morte de Vlado foi um assassinato, e não suicídio, como muitos outros acreditaram, ou fingiram acreditar'', comenta, referindo-se à versão das autoridades para o fato versão que acabou reproduzida na sequência por diversos veículos da grande imprensa.
A despeito do clima de temor e consternação no velório, Elvira foi incentivada pelo colega Hamilton Almeida Filho para sacar a Pentax que carregava na bolsa e iniciar o trabalho de registro. ''Havia uma tensão muito grande, todo mundo estava apreensivo, achando que seria o próximo a ser morto por ''suicídio''. Fotografava tudo com as mãos trêmulas, até receber uma 'gravata' de um político que achava que eu era do lado de lá'', lembra. Se o clima não era dos melhores, por um lado, por outro ela faz questão de ressaltar que o inverso também acontecia: ''Não apenas a nossa classe se uniu naquele momento, como outros setores também'', citando o Sindicato dos Artistas, presente ao local com representantes como o ator Juca Chaves, na época presidente da entidade.
Elvira ainda fotografou a cerimônia de sepultamento de Herzog, ocorrida no Cemitério Israelita do Butantã, zona sudoeste de São Paulo. A situação ali, relata a jornalista, não era muito diversa da ambientada no hospital. ''As pessoas gritavam palavras de ordem, revoltadas, mas ao mesmo tempo com aquela sensação enorme de impotência e inconformismo com tudo que estava acontecendo''.
As fotos não chegaram a ser publicadas na edição número 16 do jornal eX, que mudou a reportagem de capa às pressas, com a notícia da morte de Herzog. Segundo Elvira, o material ''escrito de madrugada, a seis mãos'' substituiu uma longa entrevista com o então arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, defensor dos Direitos Humanos.
''Estava tudo pronto para o jornal rodar, mas mudamos a edição e ela foi às bancas com uma tiragem espetacular, à época, de 50 mil exemplares. Mais 50 mil foram rodados e vendidos, e depois disso nossa Redação foi empastelada, a censura interditou tudo'', relata. Pouco antes da interdição, Elvira ''salvou'' os negativos. ''Peguei os negativos das fotos do velório e o enterro e saí por pura sorte. Elas ficaram 10 anos censuradas, mas pelo menos as dei à Clarice (viúva de Herzog) e, agora, tenho também a oportunidade de expor isso a quem não viveu essa parte da história nacional''.

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