Vítimas do carlismo são marcadas para sempre
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sábado, 19 de maio de 2001
Silvio Bressan Agência EstadoDe São Paulo 
A Bahia toda está doida para se ver livre desse homem, acredita o autor do livro Memória das Trevas. Ele é um doente, tem uma disfunção psíquica
Uma possível cassação ou renúncia do senador Antonio Carlos Magalhães terá significado especial para um jornalista e um advogado, que tiveram suas vidas abaladas pelo carlismo ou por tudo aquilo que esse sistema representou. Nem mesmo se quisessem, o jornalista João Carlos Teixeira Gomes, de 63 anos, e o advogado Carlos Mariguella, de 53 anos, conseguiriam ficar indiferentes. João Carlos, ou Joca, foi perseguido durante toda a ditadura por ACM. Na mesma época, em 1969, Mariguella perdeu o pai, o guerrilheiro Carlos Mariguella, assassinado por policiais em São Paulo.
Como Pinochet, ACM é um símbolo de poder que foi construído nesse período autoritário e a decadência deles tem um significado muito especial, avalia Mariguella, ex-deputado estadual (1982-1986) e hoje advogado em Salvador e membro da Comissão de Direitos Humanos da OAB. Esse é um momento histórico por tudo aquilo que eles representaram e meu pai sempre combateu.
Carlinhos, que nasceu no Rio, sempre conviveu com as agruras do autoritarismo. Vítima da ditadura do Estado Novo, seu pai, deputado constituinte, precisou se esconder. Fui para Salvador com minha mãe e só fui conhecer meu pai com 7 anos, recorda. Fiquei com ele até 1964, quando outra ditadura nos separou e eu voltei para a Bahia.
Do pai, ele só guarda boas lembranças: Era um grande sujeito, que só foi para a luta armada porque, ao contrário da maioria, estava convencido de que a ditadura tinha vindo para ficar. Além de perder o pai, Carlinhos chegou a ser preso, entre 1975 e 1977, quando era correspondente do jornal A Voz Sindical. Depois de não conseguir reeleger-se em 1986, resolveu se dedicar ao Direito. Mesmo afastado da política partidária, ele acompanha com grande interesse os rumos do carlismo. A derrota de ACM vai encorajar muitas pessoas que hoje o apóiam mais por medo do que por admiração.
Esta também é a convicção de Joca, que entre 1969 e 1975, no Jornal da Bahia, sofreu com o carlismo. A Bahia toda está doida para se ver livre desse homem, acredita o autor do livro Memória das Trevas. Ele é um doente, tem uma disfunção psíquica, uma tirania muito pior que a dos militares, desabafa. No livro, Joca conta histórias do carlismo, algumas engraçadas. Uma vez ele me ligou dizendo que era outro e pediu para antecipar que matérias publicaríamos contra o governador.


