Vieira acusa BC de doar Bamerindus
Vieira acusa BC de doar Bamerindus
Ex-controlador diz à Comissão que ingleses do HSBC ganharam o banco de presente e que acionistas nacionais foram confiscados
José Paulo Lacerda/Agência EstadoMistérioAndrade Vieira: Como poderiam os ingleses virem para o País, e, sem autorização desta Casa, montar um banco?Patrícia Zanin
O ex-dono do Banco Bamerindus e ex-senador José Eduardo Andrade Vieira acusou ontem o Banco Central de doar a instituição ao HSBC, grupo inglês que assumiu o controle do banco paranaense em 1997. A declaração foi feita à noite, em depoimento à CPI dos Bancos, no qual Andrade Vieira também responsabilizou o BC pela quebra do Bamerindus. O Bamerindus não foi vendido. Foi doado ao HSBC; foi um presente e um confisco da poupança de dezenas de milhares de acionistas nacionais em favor do capital estrangeiro, afirmou. Ele ressaltou que os boatos difamatórios que prejudicaram decisivamente o Bamerindus saíram do próprio BC, por meio de assessores e mesmo diretores.
Andrade Vieira fez um apelo aos senadores da CPI para apurar de modo efetivo a operação, além de abrir a eterna caixa preta do BC e descobrir como estes corsários ingleses vieram parar aqui e, pagando, se é que pagaram, tão pouco, receberam de presente uma instituição que representava tanto. Como poderiam os ingleses virem para o País, e, sem autorização desta Casa, montar um banco?, questionou.
Andrade Vieira comparou a venda de outras instituições beneficiadas pelo Proer, o programa do governo federal de socorro aos bancos, com o Bamerindus. Aquilo que foi pago por agências do Banerj, Meridional, Noroeste e Real, foi infinitamente maior do que aquele pelo qual o BC vendeu, ou melhor, doou a parte boa do Bamerindus para os ingleses do HSBC.
O ex-senador paranaense disse que o BC deu, no mínimo, R$ 420 milhões ao HSBC, em dinheiro, cash, para a aquisição da parte boa do banco, e que a parte podre, absorvida como prejuízo pelos acionistas, hoje não deve mais nada ao BC. Mesmo com todos estes desmandos, a parte ruim do Bamerindus nada deve de Proer, como nesta Casa e nesta Comissão foi declarado pelo atual presidente do Banco Central, Armínio Fraga. Segundo Andrade Vieira, o Bamerindus recebeu R$ 5,7 milhões dos mais de R$ 20 bilhões liberados pelo Proer.
Qual a razão da parte ruim de o Bamerindus vir a comprar, de imediato após a intervenção, títulos emitidos pelo Brasil (C-Bonds) para que os ingleses aportassem capital em nosso País?. Ele disse que essa operação representou mais de R$ 1 bilhão e acusou o Banco Central de conceder vantagens extras, absurdas e inaceitáveis, ao HSBC.
O ex-dono do banco disse que até hoje ele não tem o contrato de venda do Bamerindus para o HSBC, feito pelo Banco Central. Ele disse ter recebido informações de que o contrato recebeu vários aditivos e afirmou que só tem uma cópia do contrato inicial porque obteve o documento através da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado.
Juros extorsivosAndrade Vieira fez, em seu depoimento, um histórico sobre as dificuldades atravessadas pela instituição e pelo Grupo Bamerindus de 1995 em diante, que culminaram com a intervenção do BC. De acordo com ele, fiscais e auditores do BC não encontraram nenhuma irregularidade no Bamerindus. Tanto que nunca foi denunciado nada, afirmou.
Ele disse que, em janeiro de 96, quando a instituição paranaense precisou tomar recursos de terceiros, a Caixa Econômica Federal, o Banco Central e o próprio Banco Central contribuíram, mas cobrando juros extorsivos, o que, segundo ele, custou ao Bamerindus um prejuízo de R$ 300 milhões no último ano do banco. De forma estranha, as instituições não aceitaram, entre outros, o recebimento do FCVS (Fundo de Correção de Variações Salariais) dos títulos hipotecários, ou nossa carteira imobiliária, uma das melhores entre os bancos brasileiros, como pagamento destes créditos, criticou.
De acordo com Andrade Vieira, após a intervenção no Bamerindus, a Caixa Econômica Federal recebeu em pagamento do empréstimo, a carteira imobiliária de pronto. Por que após a intervenção pôde passar para a Caixa?, questionou.





