Vice toma posse e Gutiérrez tenta salvo-conduto
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quinta-feira, 21 de abril de 2005
Fabio Castro<br> France Presse 
QUITO - A crise política no Equador parecia quase resolvida ontem com o afastamento, na véspera, do presidente Lucio Gutiérrez, substituído pelo vice Alfredo Palacio. Gutiérrez negociava ontem um salvo-conduto para viajar ao Brasil, que lhe concedeu o asilo político.
Palacio, 66 anos, assumiu oficialmente a presidência durante uma cerimônia no palácio de Carondelet realizada na presença de seu novo governo e do alto comando militar. O novo ministro do Interior, Mauricio Gandara, descartou a eventualidade de eleições antecipadas. ''O presidente Palacio ficará no cargo até o fim deste mandato, ou seja, até o dia 15 de janeiro de 2007'', afirmou.
''Não sou um homem político'', afirmou Palacio pouco depois de sua posse. O homem que foi o companheiro de chapa de Gutiérrez em 2002, mas que se distanciou em seguida e o qualificou de ''ditador'', afirmou ser um simples médico pronto para servir a seu país, e se comprometeu a ''refundar a República''.
Para o novo ministro das Relações Exteriores Antonio Parra, ''o Estado de direito foi restaurado''. Gutiérrez foi deposto acusado de não ter respeitado a Constituição ao interferir na composição da Suprema Corte. Vários altos representantes políticos expressaram seu apoio a Palacio, entre eles o ex-presidente Leon Febres Cordero.
Gutiérrez, um ex-coronel que entrou na política há cinco anos, permanecia até o início da noite de ontem na embaixada brasileira em Quito, esperando um salvo-conduto que lhe permita deixar o Equador. Um aparelho da FAB deve trasladar para o Brasil o presidente deposto e sua família, mas até o final da tarde de ontem não se sabia o destino ou data da viagem. A chancelaria brasileira não confirmava ontem se o vôo chegaria ainda à noite.
Aos gritos de ''não vá embora, covarde!'', e ''Lucio corrupto!'', vários manifestantes se reuniram diante da embaixada em Quito para impedir o ex-presidente de sair do país.
Gutiérrez, eleito para um período de quatro anos (2003-2007), é o quarto presidente equatoriano que não consegue terminar seu mandato desde o retorno da democracia, em 1979.
O presidente deposto foi eleito na base de um programa de esquerda, e graças ao apoio de um movimento indígena. No entanto, assim que chegou ao poder ele promoveu uma política de austeridade que lhe valeu a simpatia do Fundo Monetário Internacional (FMI), mas também a insatisfação dos indígenas.
Gutiérrez se tornou muito impopular depois de ter reestruturado a Suprema Corte, em dezembro de 2004. Depois da reestruturação, a Corte invalidou julgamentos contra o ex-presidente Abdallah Bucaram, acusado de corrupção. Segundo uma pesquisa realizada no fim de semana passado, 80% dos equatorianos desejavam a renúncia de Gutiérrez.
As manifestações exigindo seu afastamento eram cada vez maiores, principalmente em Quito. A gota d'água que provocou sua queda foi a repressão violenta de um protesto que reuniu entre 30 mil e 50 mil pessoas, em maioria estudantes, na noite de terça-feira: 143 pessoas foram asfixiadas, 54 sofreram contusões e duas morreram (um fotógrafo chileno vítima dos gases lacrimogêneos e uma mulher atropelada por um caminhão).


