"Não houve mudanças qualitativas na Câmara de Vereadores" e "a maioria dos parlamentares, até mesmo os novatos, confunde a função parlamentar com assistencialismo" são as principais conclusões de professores de ética e filosofia política, ao analisarem, a pedido da FOLHA, a série de entrevistas feitas com os 19 vereadores de Londrina, eleitos em outubro último. A série, que está disponível na íntegra na Folhaweb, foi publicada do dia 7 a 31 de janeiro último.
Os professores da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Elve Cenci e Bianco Zalmora apontaram que, de maneira geral, o discurso é fraco. Ambos ressaltaram, por exemplo, a presença de um vício antigo: os vereadores continuam se colocando na função de assistentes sociais, e distorcendo o trabalho do parlamentar, principalmente na tentativa de fidelizar o voto do eleitor para continuarem sendo eleitos.
A característica, segundo os especialistas, é encontrada até mesmo no discurso de novatos. Na percepção dos professores, os novos vereadores estariam entrando na Casa já com a tese de que precisam ajudar certa comunidade, ou algum segmento específico. "Uma coisa é o vereador ver as demandas da cidade e levar ao Executivo, outra coisa é ele fazer assistencialismo para que ele se transforme em voto depois", disse Cenci.
Bianco afirma que se trata de um ciclo sem fim, porque o próprio eleitor espera essa atitude do candidato. "É um ciclo que alimenta o outro porque o eleitor espera a ajuda do candidato, essa assistência. Nem que seja só para ganhar uma vantagem, para dar um jeitinho. E o candidato faz, pensando em entrar na próxima legislatura", afirma.

Posição política
Além da confusão relativa à função parlamentar, os cientistas políticos consideraram preocupante o fato de a maioria dos vereadores confundirem, errarem ou mesmo não saberem responder quando questionados sobre suas posições políticas - esquerda, direita ou centro. "Há uma falta de clareza ideológica não só do candidato, que está perdido. Os partidos estão perdidos. Mas é preocupante o vereador não saber responder nem a origem política da legenda", alegou Bianco. Cenci complementou que alguns respondem até serem "de centro" porque "ficam em uma situação mais confortável". "Hoje pega mal ser de direita, ou ser de esquerda. Então sendo centro o candidato assume uma postura que ele pode mudar quando necessário, ou quando for mais conveniente", analisa.
O discurso de que "o salário do vereador deve ser compatível para que não haja corrupção" é "ainda pior", para Cenci. "Vereador tinha que ter somente uma verba de representação. Um professor ganha R$ 1,2 mil mensais, e um vereador quer ganhar dez vezes isso para não ser corrupto. Vereador não tem que ser corrupto e ponto. O discurso é absurdo." Outro problema, para Bianco, é o discurso ensaiado da "fiscalização ao Executivo", que, segundo ele, é feita conforme a "conveniência política".

Relacionamento com Kireeff
Sobre o discurso quase unânime dos parlamentares de não se posicionarem entre "oposição ou situação" ao prefeito eleito, Alexandre Kireeff (PSD), os professores acreditam que se trata de "uma legislatura que está em compasso de espera". Para Bianco, os vereadores estão em "stand by", ou seja, esperando as atitudes do novo chefe do Executivo para poderem se posicionar dentro do plenário. "Quando Barbosa Neto venceu foi diferente, porque existia claramente uma base de apoio com ele e os vereadores de oposição. Quando houve a expectativa no final do ano passado de uma possível vitória do candidato Marcelo Belinati (PP), também foi assim, porque a coligação era enorme, mas com Kireeff não. Ele estava sozinho, e cada vereador está esperando o lugar que terá no governo para poder se posicionar. Geralmente é assim que se faz política", ressaltou Cenci.
Geralmente isso é feito, segundo os professores, através da troca de favores. Dessa vez, sem coligação e isolado politicamente, Kireeff colocou os vereadores em uma situação "complicada" politicamente. "Eles estão em uma situação onde todos estavam do lado contrário, mas se o prefeito fizer uma boa gestão, eles vão querer ser situação, e, se não fizer, serão oposição. Ser situação é sempre melhor, porque os vereadores sempre lutam por essas trocas de favores. Quem é oposição não consegue dar um jeitinho para seu eleitor. Então, do lado pragmático, eles ainda estão esperando um planejamento do prefeito para se posicionar", comentou Bianco.

Serviço:
A série de entrevistas feitas com os 19 vereadores está disponível, na íntegra, no endereço da Folha de Londrina na internet: www.folhaweb.com.br.

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