O vereador eleito Emerson Petriv, o Boca Aberta (PR), que acumula 84 processos e investigações, segundo seus próprios cálculos, também é alvo de um inquérito da Polícia Federal (PF) de Londrina para apurar sua participação na invasão do condomínio Flores do Campo, na zona norte da cidade, obra com 1.218 unidades que estava sendo construída pelo programa federal Minha Casa Minha Vida e está paralisada há mais de um ano.
Segundo o titular do inquérito, delegado Sandro Roberto Vianna dos Santos, que chegou a pedir a prisão temporária de Boca Aberta, há vídeos em que o político aparece incitando os moradores a permanecer nos imóveis, que pertencem à Caixa Econômica Federal (CEF) e cuja construção foi iniciada em 2013 e paralisada há cerca de oito meses. A invasão, por cerca de mil famílias – aproximadamente 3,5 mil pessoas – ocorreu em 30 de setembro, dois dias antes das eleições nas quais Boca Aberta foi o candidato a vereador mais votado.
O ex-vereador Tito Valle (PTN), que disputou uma vaga na Câmara Municipal em outubro e não foi eleito, também é um dos investigados, juntamente com outras seis pessoas que residem na ocupação.
Boca Aberta é suspeito de associação criminosa, esbulho possessório, que é a invasão propriamente dita, e incitação ao crime. "Nós tivemos a convicção, pelos indícios que foram levantados, que o futuro vereador exerce uma liderança efetiva sobre as pessoas que invadiram aquele local", declarou o delegado.
Como indício, apontou o fato de que teria sido Boca Aberta quem contratou advogado para o grupo; que indicou o nome de uma pessoa para responder judicial ao processo judicial de reintegração de posse; e que proibiu a entrada de equipes de TV no local, "agindo como o líder da invasão". "Existe sim liderança por parte do Boca Aberta e, de alguma forma, estava incitando aquele pessoal a permanecer no local."
Em decorrência da investigação, ontem pela manhã, pouco depois das 6 horas, duas equipes da PF cumpriram mandado de busca e apreensão na residência de Boca Aberta, um sobrado localizado no Jardim Imagawa (zona norte). De lá, levaram um telefone celular e um computador. A intenção é saber se Boca Aberta esteve envolvido no planejamento e invasão dos edifícios, que ocorreu em 30 de setembro.
Vianna disse que as tratativas foram feitas por meio de mensagens no aplicativo WhatsApp e, portanto, será possível saber a dimensão do envolvimento de Boca Aberta. "Vamos periciar os equipamentos apreendidos e verificar, se ele, de alguma forma, foi um dos líderes que providenciou a invasão."
O delegado não descartou pedir novamente a prisão do vereador eleito, negada pela Justiça Federal.
Vianna acrescentou que se o inquérito revelar eventual uso do apoio às famílias que invadiram o imóvel para obter votos, cópia da investigação será encaminhada à Justiça Eleitoral.

REINTEGRAÇÃO DE POSSE
A Justiça Federal concedeu reintegração de posse do imóvel, em 5 de outubro, ainda não cumprida pela PF. Na verdade, como havia ameaça de invasão, a Justiça havia dado um interdito proibitório que, após a invasão, se converteu em reintegração de posse. "A Polícia Federal ainda está nos preparativos para esta operação. Demanda pessoal, material, é uma questão complicada porque são mais de mil famílias", disse Vianna, acrescentando que os agentes também constataram no local a ação de traficantes.

OUTRO LADO
Boca Aberta negou a prática de eventuais crimes. Disse que apenas esteve no local "como vereador eleito, para ver as condições do povo". "Eu fui surpreendido hoje por um mandado de busca na minha casa", comentou em entrevista à Rádio Paiquerê AM. "Eu não defendo a ocupação, não defendo invasão. Eu defendo a lei. O que diz a Constituição Federal? Que todos têm direito à educação, segurança, moradia." Ele afirmou que esteve no local com o deputado federal Marcelo Belinati (PP), prefeito eleito de Londrina.
O delegado Sandra Vianna, diante desta declaração do vereador eleito, disse que poderá solicitar informações a Belinati. Acrescentou que ficou surpreso com a informação porque o deputado não aparece nas imagens. "Caso essa informação venha a se confirmar quando ele for formalmente inquirido, ele (Marcelo Belinati) poderá ser uma das pessoas intimadas."
Belinati disse que somente esteve no local em 30 de outubro, após as eleições, a convite das pessoas que ocupam o imóvel e de Boca Aberta. Como prefeito eleito, foi ouvir as reivindicações dos moradores e levou os pedidos à Caixa, Cohapar e Cohab, as companhias responsáveis por projetos habitacionais no Paraná e em Londrina. Ressaltou que outros políticos estiveram no local, como o prefeito Alexandre Kireeff (PSD).
Tito Valle, por sua vez, afirmou que ainda durante a campanha, por ser advogado, foi procurado por um grupo de pessoas que pretendia invadir o local, para prestar assessoria sobre os interditos proibitórios. "Minha participação se restringe unicamente a uma assessoria jurídica para pessoas que conhecia de outra situações", afirmou.

ADULTERAÇÃO
Conforme informou ontem a FOLHA, o juiz da 189ª Zona Eleitoral de Londrina, Rodrigo Afonso Bressan, informou ao Ministério Público Federal (MPF) e o Tribunal de Justiça (TJ) do Paraná sobre uma suposta adulteração de documento oficial em processo envolvendo Boca Aberta. Um mandado de intimação para audiência no dia 10 de novembro, emitido pelo juiz, teria tido a data alterada para o dia 21 de novembro, última segunda-feira, antes de ser apresentado à 1ª Turma Recursal do TJ, onde estava marcada, para o mesmo dia – 21 de novembro -, a sessão de julgamento do recurso de Boca Aberta em processo no qual foi condenado pela contravenção penal de vias de fato. Boca Aberta alegou "erro de comunicação da intimação, enquanto sua advogada Anna Carolina Milléo Bittencourt disse ter agido de boa fé e que recebeu o documento do próprio vereador eleito.
TJ e MPF ainda não se manifestaram sobre o caso.

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