Vereador ''compra'' votos com excursão
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sábado, 03 de junho de 2000
Michele Muller De Curitiba 
Seiscentas pessoas ganharam na última sexta-feira um passeio de trem de ida e volta a Paranaguá, Litoral do Estado. Em troca da passagem, todos precisaram apresentar o título de eleitor e guardar o nome do vereador que promoveu a viagem, Osmar Bertoldi (PPB). Numa campanha nem um pouco franciscana para a reeleição, o vereador já ofereceu dois passeios e está convidando mais 600 curitibanos para uma próxima ida ao litoral, marcada para sexta-feira que vem.
Os interessados em participar devem preencher uma ficha de cadastro com nome, nome dos pais, número da carteira de identidade, e a informação mais importante o número do título de eleitor. Ou seja, quem não vota, não tem direito às passagens. Todos os dados foram apresentados a coordenadores do projeto em diversas regiões da cidade, que na maior parte dos casos são os presidentes das associações de bairro. As passagens foram trocadas ainda anteontem de manhã por aqueles que estavam na lista de inscritos.
A Folha conversou com cerca de 20 pessoas que se encontravam, pouco antes da saída do trem, no saguão da Serra Verde Express empresa responsável pelo serviço ferroviário que liga Curitiba a Paranaguá. Apenas um dos entrevistados, a auxiliar de enfermagem Jana Dantas Alves, garantiu que seu voto não fora comprado pelo vereador. Quase todos os convidados para o passeio acreditam que, com o número do título dos eleitores em mãos, o candidato pode controlar os votos.
Claro que pode. E como não conheço outro candidato, vou votar nele, conta a aposentada Nazira Santos. Cecília Gonçalves, também aposentada, chegou a levar o título junto na viagem de ontem desconfiando que fosse necessária a apresentação do documento na retirada da passagem, poucos minutos antes da partida. Ele já tem meu voto, avisa, rodeada de outros idosos que, como ela, mostravam orgulhosos o título de eleitor. Eles fazem parte do público-alvo do projeto de Osmar Bertoldi, que ofereceu passeios em diversas instituições para a terceira idade de Curitiba.
Outra parcela do público do vereador é formada por jovens, que aproveitaram a greve nas escolas públicas para passar o dia em Paranaguá desde que já fossem eleitores. As estudantes Audrey Francini e Elizângela de Castro, ambas de 16 anos, acabaram de tirar o título de eleitor e mostraram-se surpresas com as vantagens de ter o documento na carteira. Nunca tinha ido a Paranaguá, disse Elizângela, ansiosa com o passeio que faria poucos minutos depois da entrevista. Assim como os idosos, as meninas, que vão votar pela primeira vez, acham que o político tem acesso à identidade dos eleitores.
A coordenadora do projeto no Boqueirão, Carmem Biscotto, admite que muitos se sentem indimidados ao apresentar o número do título. Mas todas as pessoas convidadas para a viagem já votaram no Osmar nas últimas eleições. Essa foi só uma maneira que ele encontrou de reunir seu eleitorado, diz. Não é bem isso que parece. Para muitas pessoas, o nome do vereador era desconhecido. Eu não votei nele. Mas dessa vez vou votar, confessa o motorista Joaquim Miguel dos Santos.


