Verbas acirram disputas no Congresso
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sábado, 22 de novembro de 1997
Agência Estado Brasília 
A Comissão Mista de Orçamento virou palco, na madrugada de ontem, do ensaio da campanha eleitoral de 1998. Com direito a bate-boca, ameaças de sopapos e até de renúncia, deputados e senadores aliados do Palácio do Planalto engalfinharam-se, até as 2 horas, na disputa por verbas do Orçamento de 1998, que devem somar mais de R$ 2 bilhões.
A briga, patrocinada sobretudo pelas bancadas da Bahia, Ceará, Pernambuco e Minas Gerais, continuou durante todo o dia de ontem e acabou mobilizando os líderes partidários. A confusão começou pela Bahia, onde PSDB e PFL, aliados no Congresso, estão em lados opostos.
O deputado José Carlos Aleluia (PFL-BA) acusou o PSDB de ter descumprido o acordo dos baianos, feito durante a fase de apresentação de emendas, segundo o qual 65% da verba reservada no Orçamento para o Estado iria para os redutos pefelistas - por ser essa a representação proporcional da bancada.
Segundo Aleluia, os tucanos levaram vantagem ao negociar separadamente com os relatores setoriais obras para suas prefeituras. O PSDB, representado pelos deputados João Almeida e João Leão, não aceitaram a reprimenda, o que deu início a um longo bate-boca. Se for preciso, vamos lá fora tirar a diferença no braço, ameaçou Leão.
O segundo round da briga teve novamente como protagonistas pefelistas e tucanos, mas desta vez de Estados diferentes. O PSDB do Ceará se desesperou por não conseguir manter no relatório da área de infra-estrutura emenda que destinava R$ 42 milhões para o porto de Pecém. O dinheiro foi transferido, pelo relator Pedro Novais (PMDB-MA), para o Porto de Suape, em Pernambuco - obra que sempre mereceu emendas do ex-senador e hoje vice-presidente da República, Marco Maciel.
Apesar de a conclusão de Suape - falta pouco para o porto ser terminado - beneficiar o governo de Miguel Arraes (PSB), o PFL não abre mão de defender a obra. Entre os pernambucanos, que irromperam ontem na Comissão de Orçamento para vigiar as investidas do Ceará, estava o líder do PFL na Câmara, Inocêncio Oliveira.
Do lado cearense, apareceu o líder do PSDB no Senado, Sérgio Machado. Irritado com o procedimento da Comissão, Machado prometeu denunciar as obras irregulares que constam da proposta orçamentária de 1998. Para reforçar a posição tucana, o líder do governo no Congresso, senador José Roberto Arruda (DF), também visitou a Comissão e fez novas ameaças: avisou que o governo poderia substituir membros e relatores. Depois, foi a vez do PMDB de Minas Gerais, que controla o Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), pressionar por mais verbas para estradas.
No meio de tanta discórdia, o presidente da Comissão, o senador Ney Suassuna (PMDB-PB), que havia brindado os colegas com lanches e refrigerantes, perdeu a calma e ameaçou renunciar ao cargo. A oposição, que tem muito menos chances de ver suas emendas atendidas, acompanhou tudo de camarote. Parece que perdemos totalmente a noção de realidade, definiu o deputado Paulo Bernardo (PT-PR). Ninguém parece se lembrar que o Orçamento de 1998 é aquele que vai sofrer um ajuste de R$ 20 bilhões.


