Venezuela vive uma agitação pacífica
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terça-feira, 19 de fevereiro de 2002
Jacques Thomet France Presse 
Caracas A Venezuela deixou de lado os golpes de Estado vivendo, agora, uma agitação militar tão pacífica quanto inédita, com a rebelião de três oficiais em onze dias, mas sem um só ato de violência nem repressão.
Estas revoltas públicas sucessivas, iniciadas pelo coronel da Força Aérea Pedro Soto dia 7 de fevereiro, e seguidas pelo capitão Pedro Flores da Guarda Nacional, tiveram como protagonista segunda-feira o contra-almirante Carlos Molina: os três coincidiram em exigir a demissão do presidente Hugo Chávez mas rejeitaram um golpe militar na Venezuela.
A Venezuela, país que liderou a independência contra a ocupação espanhola no início do século XIX sob a bandeira do Libertador Simón Bolívar, possui 23 milhões de habitantes que vivem hoje, pela primeira vez, um debate democrático, transmitido pela televisão ao vivo, tendo como vedettes os quepes e os distintivos militares.
Os debates ilustram uma marcada ruptura entre as camadas pobres fiéis ao populismo de esquerda de Hugo Chávez em sua paixão por levar adiante uma revolução na democracia, que tem como base a reforma agrária, e seus adversários das classes altas, que temem o espectro do comunismo castrista.
Neste país sul-americano fortemente traumatizado pelo Caracazo (motins e saques) de 27 de fevereiro de 1989, com um resultado de mais de 200 mortes depois de três dias consecutivos de violência, durante a presidência do social-democrata Carlos Andrés Pérez, a tranquilidade dos atuais enfrentamentos ideológicos transforma estes intensos momentos num período único da história.
Que três oficiais se rebelem contra o chefe de Estado diante das câmaras de televisão e retornem a seus comandos sem comoções e sem sofrer a menor punição, numa calma total que se confunde com os vivas de seus admiradores, traduz a contradiççao inerente a este processo. Acusado pelos oficiais rebeldes de querer instaurar um regime à cubana em razão de sua ajuda a Havana com tarifas preferenciais para o petróleo que vende à ilha, Hugo Chávez representa, paradoxalmente, o maior apoio para os singulares pronunciamentos de seus adversarios, que são protegidos pela Constituição em vigor.


