''Vendi os produtos para pagar colonos ''
O prefeito Miguel Carlos Rodrigues de Aguiar, 47 anos, admitiu, em entrevista à Folha, ter vendido a soja e o milho que o governo federal mantinha estocados em armazéns de sua propriedade. Disse que fez isso porque a empresa Indústria e Comércio de Sementes Mangueirinha (Agropema), da qual é sócio majoritário, enfrentou sérias dificuldades financeiras.
Com a crise da agricultura, em 96 os colonos que compraram insumos da empresa ficaram inadimplentes comigo. Aí tive duas opções: ou não pagava os agricultores que entregaram sua produção à cerealista ou vendia os produtos do governo para pagar esses colonos, afirmou. Fez a segunda opção: Quantos colonos já não levaram calote do Banco do Brasil?, justificou. Na época, a Agropema, além de alugar seus armazéns para o governo, atuava na venda de insumos agrícolas e na compra de cereais de agricultores.
As dificuldades da empresa teriam ocorrido no período em que Aguiar exerceu seu primeiro mandato de prefeito de Mangueirinha, de 1993 a 96. Quando ganhei a eleição, abandonei a empresa para cuidar da prefeitura.
Apesar de só ter iniciado as negociações com o banco quase quatro anos após o desvio dos produtos, Aguiar disse que, nesse período, continuou pagando as dívidas acumuladas pela empresa durante sua ausência. Nos últimos quatro anos, só paguei dívidas. Hipotequei 53 imóveis que possuo, em vários Estados, para garantir o pagamento ao Banco do Brasil.
Na negociação que faz com o banco estatal, Aguiar propõe pagar entre R$ 1,7 milhão e R$ 1,8 milhão o valor de mercado atual dos produtos desviados, sem correção monetária. Devo produto e não dinheiro, raciocina. Ele calcula que, nessas condições, poderá quitar a dívida em um prazo de cinco anos. Procurado pela Folha, o responsável pela Unidade Regional de Cobrança do BB em Cascavel, Leomar Sphor, não quis se pronunciar sobre a negociação que vem conduzindo.
Em relação à dívida de R$ 212 mil com o INSS, o prefeito disse que se beneficiou do Refis (programa federal de refinanciamento de dívidas tributárias ou fiscais). Está pagando mensalmente 1% do faturamento da empresa.
Aguiar atribuiu o mau desempenho financeiro da cerealista à sua carreira política. Em 92, não devia nada. Em 96, estava quase falido, compara. Mesmo assim, ele decidiu voltar à política. Vencer a última eleição foi um atestado de idoneidade para mim. Afirmou que amigos bancaram sua candidatura no ano passado. Ele atribuiu à disputa política os processos por crime eleitoral que sofreu.
Aguiar preferiu dar entrevista à Folha na regional de Curitiba e não em Mangueirinha. Ele conversou com a reportagem na tarde de terça-feira e se recusou a ser fotografado. (V.D.)





