Brasília - Em sua primeira visita oficial ao exterior na condição de novo presidente do Uruguai, o socialista Tabaré Vázquez deixou ontem, em Brasília, uma surpreendente mensagem sobre uma das mais caras ambições da política externa brasileira. Em discurso no Palácio do Planalto, ao lado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Vázquez afirmou de que não apóia, neste momento, o ingresso do Brasil ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) como membro permanente.
Apesar da expectativa de convergência entre os dois governos, que mantêm bases de centro-esquerda, esse é o segundo gesto do novo governo uruguaio que contraria as ambições do Brasil na área internacional. No final de fevereiro, o ministro das Relações Exteriores do país vizinho, Reinaldo Gargano, deixara claro em Brasília que o Uruguai não retiraria a candidatura de Carlos Pérez del Castillo para a direção-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC).
O próprio Vázquez confirmou essa posição na sua primeira entrevista à imprensa, no dia 3 de março. O governo brasileiro, entretanto, esperava o recuo, que seria estratégico para reforçar a escolha de seu candidato, o embaixador Luiz Felipe Seixas Corrêa, para o posto. ''Nós nos comprometemos, uma vez que se resolva como será o aumento do número de membros do Conselho de Segurança, a estudar as legítimas aspirações do Brasil'', limitou-se a declarar Vázquez, ao final de um longo discurso em favor do fortalecimento e da consolidação do Mercosul.
A declaração de Vázquez caiu na contra-corrente da estratégia do Brasil para alcançar esse objetivo. O apoio do Uruguai e dos demais vizinhos sul-americanos é considerado fundamental por se tratar da área de influência mais direta da política externa brasileira e de países em desenvolvimento - os quais Brasília tem a pretensão de representar no próprio Conselho.
Em seu discurso, anterior ao de Vásquez, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que está ''sensível aos sinais que o governo uruguaio emite'', em referência indireta à escolha do Brasil - e não a Argentina - como primeiro destino de uma visita oficial de Vázquez e à decisão de Montevidéu em incorporar-se ao G20, o grupo de economias em desenvolvimento liderado pelo Brasil que defende negociações agrícolas mais profundas da Rodada Doha da OMC. ''Felicito o ingresso do Uruguai ao G20. Essa decisão faz com que o Mercosul se apresente como uma voz única nas negociações comerciais internacionais'', afirmou Lula, ao ler o seu discurso.
O presidente brasileiro lembrou ainda que havia acompanhado a trajetória política do líder socialista uruguaio e testemunhado o seu engajamento com o fortalecimento do Mercosul e com o apoio ao processo de integração sul-americana. Essa mensagem foi reiterada por Vázquez, que acrescentou uma reivindicação que não passou desapercebida. ''Os uruguaios querem mais e melhor Mercosul. Mas não querem ser só sócios (do bloco), mas protagonistas'', declarou.

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