Curitiba – Falando pela primeira vez desde que foi preso há exatamente um mês e três dias, o ex-deputado federal André Vargas (sem partido-PR) afirmou ontem, em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobras, em Curitiba, que conhece Alberto Youssef há mais de 30 anos, quando ele ainda vendia coxinha no Aeroclube de Londrina, mas que nunca recebeu nenhum repasse do doleiro. "Não reconheço nenhum repasse financeiro feito pelo Youssef porque não ocorreram", disse.
A expectativa dos parlamentares era de que o londrinense e os outros dois ex-deputados já indiciados pela Polícia Federal (PF) – Luiz Argôlo (afastado do Solidariedade-BA) e Pedro Corrêa (PP-PE) - pudessem prestar mais esclarecimentos à Comissão, entretanto, os investigados se limitaram a negar as acusações e ressaltar suas inocências. Nem mesmo quando foi provocado pelo deputado Onyx Lorenzoni (DEM-ES), Vargas retrucou. Apenas sorriu quando o ex-colega de Câmara o provocou: "Era um falastrão e hoje é um caladão. Se cala porque se falar se enrola, vale para ele o que vale para todos. O instrumento de ficar em silêncio é apenas para reafirmar que seu silêncio é sua culpa e a condenação virá".
Vargas ouviu silenciosamente as acusações contra ele. Apenas se limitou a dizer que "as grandes injustiças se corrigem com tempo, silêncio e paciência", quando a deputada Eliziane Gama (PPS-MA) lamentou o silêncio do ex-parlamentar frente as perguntas. Ainda questionado pelo deputado Ivan Valente (PSOL-SP) se suas empresas Limiar e LSI eram realmente de fachada como apontam as investigações, o londrinense afirmou que "tudo será corroborado e desmentido no processo legal".
Indagado pelo deputado Delegado Valdir (GO), se ainda mantinha contato com seus ex-colegas de legenda e se teria recebido visitas na carceragem da PF, Vargas disse que recebeu visitas de petistas porque todos os familiares são filiados ao PT.
Argôlo também declinou da maioria das perguntas e afirmou que sua relação com Youssef era privada e não política. "Existia algo privado. Conheci o doleiro como um empresário que tinha investimento no Estado da Bahia", apontou. Ele completou dizendo que conheceu o doleiro na casa do ex-ministro das Cidades Mário Negromonte e do ex-governador da Bahia João Leão, ambos do Partido Progressista (PP).
O ex-deputado ainda destacou que após ser oficialmente denunciado à Justiça terá a oportunidade de se defender. "Não tenho nada a ver com Operação Lava Jato, com Petrobras. Não tive indicação de nenhum cargo na Bahia ou no Brasil", disse. Segurando um terço em uma das mãos durante todo o depoimento, finalizou sua fala com uma citação bíblica: "Os humilhados um dia serão exaltados".
Mesmo dizendo que iria permanecer em silêncio, Pedro Corrêa foi o que mais respondeu aos questionamentos. A maioria de suas respostas, no entanto, foi sobre seu histórico na Câmara e de sua condenação na época do processo do mensalão. Ao final, Corrêa ressaltou que não pretende fazer delação premiada como chegou a ser divulgado, que acredita "ser inocente", e que confia na Justiça do País.
Além dos ex-deputados e da doleira Nelma Kodama, também foram convocados na tarde de ontem, Rene Luiz Pereira (preso por lavagem de dinheiro do tráfico internacional e tráfico de drogas); Carlos Habib Chater (doleiro) e Ricardo Hoffmann (publicitário e ex-dirigente da agência Borgui/Lowe), mas todos ficaram em silêncio.

BALANÇO
Depois de dois dias com 14 depoimentos, integrantes da CPI da Petrobras consideraram importante a vinda a Curitiba para ouvir os envolvidos na Lava Jato. "Frustrou um pouco em relação às pessoas que optaram pelo silêncio, mas aqueles que se dispuseram a falar deram contribuições importantes. Agora, vamos analisar todas as informações que foram repassadas aqui", afirmou o deputado Luiz Sérgio (PT-RJ), relator da Comissão.
Segundo Hugo Motta (PMDB-PB), presidente da CPI, o esforço de vir até Curitiba demonstra a vontade do grupo de avançar nas investigações."Algumas pessoas colaboraram outras nem tanto quanto a gente esperava, mas o saldo é positivo." Motta ainda revelou que na próxima semana os deputados devem visitar as obras da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, além de começarem a ouvir os depoimentos dos empreiteiros que estão em prisão domiciliar.

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