Brasília - O maior negócio de Marcos Valério Fernandes de Souza não deu certo. Mas se desse, faria o escândalo do mensalão parecer brincadeira de lobistas amadores. Associado ao Banco Rural e aliado a Delúbio Soares e José Dirceu, Valério tentou forçar, junto ao Banco Central, as liquidações dos Bancos Econômico e Mercantil de Pernambuco, que se arrastam há anos, num negócio que poderia render aos beneficiários R$ 9,8 bilhões e foi brecado pelo presidente do BC, Henrique Meirelles.
Em São Paulo, Valério, Delúbio e Dirceu chegaram a apresentar um representante do Mercantil de Pernambuco ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para mostrar à família Queiroz Monteiro, antiga controladora do banco, a força política que estava por trás do esquema. Para barrar o esquema, Meirelles contou com o apoio do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, mas virou alvo do ''fogo amigo'' acionado a partir do PT e da Casa Civil.
''Se tivesse ido adiante, teria sido o grande escândalo do governo Lula'', diz hoje uma fonte do governo. Esta semana, quando confirmou num depoimento ter pedido ao ex-controlador do Econômico Ângelo Calmon de Sá para marcar uma conversa com dirigentes da Portugal Telecom, Valério revelou a ligação estreita com o banqueiro baiano. Segundo técnicos da área econômica que acompanharam o caso, Palocci e Meirelles teriam avaliado recentemente que a atuação do BC no caso ''estragou todo o esquema e salvou o presidente Lula de um impeachment inevitável''.
O projeto com a engenharia para a liquidação do Mercantil, cuidadosamente preparado pelo advogado Sérgio Monteiro Cavalcanti, neto de Armando Queiroz Monteiro Filho, 80 anos, o dono original do banco, foi entregue ao Banco Central no dia 9 de julho de 2003. Nos dias subsequentes, o projeto atraiu a atenção de Marcos Valério e Delúbio, que se aproximaram dos antigos controladores, usando a ligação de Valério com o Banco Rural, que tinha 22% do banco em liquidação.
Além da força política que seria capaz de dobrar o BC e apressar a liquidação, Valério encaminhou uma solução que permitiria encerrar as liquidações do Mercantil e do Econômico com uma sobra de caixa de R$ 9,8 bilhões, sendo que R$ 9 bilhões ficariam para Calmon de Sá e R$ 800 milhões para a família Queiroz Monteiro. Ele, claro, ficaria com um porcentual destes valores, à guisa de comissão de remuneração.
A ''solução'' de Valério previa a venda dos ativos injetados pelo Proer nos dois bancos falidos para lastrear os processos de liquidação. No caso do Mercantil, os ativos eram NTN A3 (Notas do Tesouro Nacional), que a família Queiroz Monteiro queria vender, pagando a dívida com o BC corrigida só pela TR, embora admitissem auferir toda a valorização dos títulos cambiais. O BC queria corrigir a dívida por juros de mercado, até o valor das garantias.
Essa diferença impediu que a família Queiroz Monteiro chegasse a um acordo com Meirelles, depois de finalizar o governo anterior cheia de esperanças de concluir o negócio com o BC. No BC, Meirelles teria sempre jogado em tabela com Palocci, que nunca teria pressionado por uma solução heterodoxa. Mas assessores dos dois lados relatam hoje que Meirelles foi várias vezes advertido que a posição intransigente nas liquidações dos dois bancos iria lhe causar dores de cabeça.
No início, Meirelles não ligou para as advertências. Mas quando se avolumaram os boatos, fofocas e plantações que colocavam em xeque sua permanência no cargo, começou a compreender a razão dos alertas. No BC e no Ministério da Fazenda, muitos técnicos de relevo apontam diretamente para o deputado José Dirceu, então ministro da Casa Civil, como fonte dos ataques. Meirelles, no entanto, conseguiu escapar sem grandes arranhões das investidas de Marcos Valério.
Ele esteve várias vezes no BC para tratar das liquidações dos bancos e em todas falava como se tivesse autorização plena do Banco Rural. A primeira audiência com o diretor de Liquidação, Gustavo Matos do Vale, foi solicitada pelo então presidente do Rural, José Augusto Dumont, que morreria em março de 2004 num acidente de carro. Houve outros encontros com Vale e o consultor da diretoria Marco Antônio Belém. As reuniões foram nos dias 11 e 25 de novembro e 2 de dezembro de 2003. Um quarto encontro teria sido com o diretor de Fiscalização, Paulo Cavalheiro.

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