Brasília - O publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza afirmou ontem que não exigiu a Duda Mendonça a abertura de uma conta em um paraíso fiscal como condição para lhe transferir recursos. Em depoimento não agendado que prestou na CPI do Mensalão, a poucos metros de onde Duda e sua sócia Zilmar Fernandes também depunham, Valério deu a entender que não quer levar a culpa por todas as irregularidades que estão surgindo.
''Fui usado pelo PT e cuspido para fora. É muito mais fácil acusar o publicitário Valério do que o marqueteiro Duda Mendonça. É muito mais fácil falar em ''valerioduto' do que em ''dirceuoduto' e ''PToduto''', afirmou, mencionando diretamente, além de Duda, o ex-ministro José Dirceu (PT-SP), que saberia de todas as transações, segundo ele.
Valério entregou à CPI meios eletrônicos que, segundo ele, contêm toda a contabilidade da SMPB e de outras de suas empresas. No momento em que compareceu à comissão, às 16h30, a repercussão das declarações de Duda à CPI dos Correios já tomavam conta do Congresso. ''O pedido para remeter [os recursos] para fora foi dele [Duda], foi da dona Zilmar [sócia de Duda]'', afirmou Valério. ''Não orientei ninguém, o senhor Duda Mendonça, que tem muito mais experiência empresarial do que eu, que tem 61 anos, não precisaria de orientação de ninguém para abrir conta no exterior.''
O publicitário já havia prestado um longo depoimento à CPI do Mensalão na terça-feira, mas não havia feito menção à conta que o marqueteiro da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva abriu no exterior. ''Já saquei tanto dinheiro na minha conta, não tinha razão nenhuma para exigir que a transação fosse feita fora do país'', disse.
Valério declarou ontem que sabia da conta e que os repasses a Duda foram determinados por Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT. O publicitário disse que os recursos repassados a Duda, que totalizariam R$ 15,5 milhões, são originários dos empréstimos que ele fez nos bancos Rural e BMG, a pedido do PT.
Questionado pelos integrantes da comissão, Valério negou saber em que Duda usou o dinheiro, afirmando que Delúbio lhe dissera apenas que se tratava de dívida do PT com o marqueteiro. ''Fui procurado pelo Delúbio, que me incumbiu de pagar o Duda, por meio da Zilmar. Fiz os pagamentos à pessoa que ela indicou, o consultor financeiro de nome Jader'', disse Valério. Em relação ao dinheiro que teria seguido para o paraíso fiscal, Valério afirma que ele foi sacado pelo consultor por meio de 22 cheques emitidos pela SMPB.
Valério foi muito questionado por vários deputados sobre o porquê de suas empresas terem enviado por fax comprovantes a Duda de que o dinheiro teria sido remetido ao exterior. Isso, segundo os deputados, seria uma forma de provar que Duda dizia a verdade: era Valério quem transmitiu diretamente o dinheiro para fora do país. O publicitário afirmou, entretanto, que isso era uma forma de documentar que ele havia transferido o recurso a Duda e que os comprovantes foram-lhe remetidos previamente pela sócia de Duda.
O clima ficou tão quente ontem que o deputado Darcísio Perondi (PMDB-RS) chegou a pedir a convocação de Lula pela CPI, que não tem poderes para tanto. Valério negou ainda que tenha transferido dinheiro a Paulo Okamoto, presidente do Sebrae, para que ele quitasse um empréstimo que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria contraído no PT. ''Não, nunca'', afirmou em resposta ao questionamento. Ele negou também ter conhecimento de que R$ 11 milhões dos recursos repassados a Duda teriam sido para quitar dívidas da campanha eleitoral de Lula.

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