Agência Estado
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Os perdedoresQuércia, Itamar, Paes de Andrade e Sarney chegam para o início da convenção: queixas, ataques, tumulto e, no final, a derrotaEm um discurso tímido, que não chegou a empolgar a platéia, o ex-presidente Itamar Franco criticou ontem, na convenção do PMDB, a política de privatização do governo e atacou o que é hoje o principal problema para Fernando Henrique Cardoso: o desemprego no País. Na tentativa de tentar atrair votos de convencionais do partido a favor da candidatura própria, Itamar voltou a cobrar a autoria do Plano Real e pediu a união do PMDB para um ‘‘Brasil mais solidário e com mais justiça social’’.
‘‘Se não fosse nosso apoio, Fernando Henrique não estaria no Palácio do Planalto’’, ressaltou o ex-presidente, no discurso interrompido pelo menos quatro vezes pelos apitaços, refrões gritados pelos grupos pós e contra e até em razão de brigas entre manifestantes dentro do plenário da Câmara dos deputados. Com a voz várias vezes enfraquecida pela emoção, Itamar disse que, como ex-presidente e criador do Real, tinha autoridade para fazer críticas ao governo Fernando Henrique. ‘‘Combati a reeleição e a venda da Companhia Vale do Rio Doce’’, lembrou Itamar, que reclamou ainda da participação ‘‘periférica’’ do partido na administração.
Ainda exercendo no governo o cargo de embaixador do Brasil na Organização dos Estados Americanos (OEA), Itamar disse que o PMDB tinha participação em alguns setores, como na política externa. ‘‘Mas onde está o PMDB na ordem econômica, no controle da moeda, dos juros, no Banco Central?’, cobrou, voltando suas críticas à área econômica do governo. ‘‘Dentro de um processo de globalização selvagem, nós temos que ter sentimento de pátria, que não existe entre eles’’.
‘‘O PMDB precisa e deve ter seu candidato’’, frisou Itamar Franco, que, depois de ser interrompido pela quarta vez, lembrou que seu candidato preferencial para a presidência em 1994 não era Fernando Henrique, mas o atual governador do Rio Grande do Sul, Antônio Britto, do PMDB. ‘‘Alguém dirá que não escolhi o PMDB, mas gostaria que neste cenário estivesse Britto para desmentir se eu o não convidei’’, disse o ex-presidente, que encerrou sua fala citando o profeta Isaías. ‘‘Ele disse: vamos olhar para os lados e, quando olhamos, o que vemos são milhões de desempregados’’.
CardeaisA tribuna e os microfones da convenção nacional do PMDB serviram, ontem, mais ao acerto de contas entre os líderes governistas que apóiam a reeleição e aos defensores da candidatura própria do que para discutir qual das duas teses seria mais útil ao projeto de poder do partido. Os cardeais do PMDB aproveitaram o encontro para lavar roupa suja em público e trocarem desaforos e baixarias.
Em meio ao calor dos discursos agressivos, os governistas foram apontados como ‘‘pilantras’’ por pagarem uma claque para defender a reeleição. O líder na Câmara, Geddel Vieira Lima (BA), foi chamado de ‘‘percevejo’’. O pré-candidato Roberto Requião (PMDB-PR) apareceu como ‘‘Maria Louca’’, apelido dado pelo ex-governador Orestes Quércia, a quem no passado chamara de ladrão. E por ter lembrado dessas antigas desavenças, o líder no Senado, Jáder Barbalho (PA), foi acusado de usar a palavra para tecer ‘‘uma intriga de costureira’’.
‘‘Essa convenção gerou um volume extraordinário de água suja’’, constatou o governador do Rio Grande do Sul, Antônio Britto, desejando que o tempo funcione como uma esponja para limpar tudo isso. ‘‘Estou horrorizado, porque jogaram pesado demais’’, confessou o vice-líder Ricardo Rique (PMDB-PB), depois de ouvir os discursos de Jáder, Geddel, Requião e Itamar.
Os embates entre correligionários começaram assim que o presidente do partido, deputado Paes de Andrade (CE), encerrou seu discurso de abertura da convenção. Até ali, só o presidente Fernando Henrique Cardoso merecera críticas públicas, por conta do aumento de impostos, do desemprego, dos juros e da dívida pública.

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