Utopia dos delinquentes
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sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019
Luiz Geraldo Mazza 
Utopia dos delinquentes
Se existe aspiração de felicidade máxima, aquilo que se define como utopia, para os normais ela também favorece os delinquentes. O raciocínio decorre da vacilada do mito Sergio Moro na questão do caixa 2, visto como mal menor ao da corrupção, como não se tratasse de coisas ligadas, o acessório seguindo o principal.
Claro que isso tem pouco a ver com as utopias da Renascença - a de Tomas Morus, a de Campanella e a forjada na Nova Atlântida -, mas revela como de uma aspiração menor e até criminosa se pode gerar uma visão de mundo. A alegada criminalização da classe política pela Lava Jato é a bandeira de pequenos e grandes corruptos apanhados pela operação na doutrina de que Caixa 2 é um pecado venial dentre as formas de manipulação eleitoral, decorrentes até das vulnerabilidades da legislação, especialmente depois que cortaram o investimento privado na área de forma abrupta.
Há muito tempo se cultiva essa normalidade do Caixa 2 e a fauna crê - o que no momento aparenta absurdo - até numa anistia específica para os atingidos pela sanção decorrente e que devolveria "normalidade" à função da política no regime democrático. Nesse processo questões conceituais têm que ser olhadas com o maior rigor: uma concessão, por menor que seja, pode gerar o absurdo. Ademais, convenhamos, que discutir junto com a reforma previdenciária é um risco de avanços na luta essencial contra a corrupção se transformarem em moeda de troca, o que não fugiria aos nossos padrões.
Cheia
É verdade que a enxurrada que atingiu Curitiba foi a correspondente a de todo o mês, mas não há como ocultar a deficiência notória da drenagem numa urbe que é mais de 70% concreto e com níveis de impermeabilização assustadores. Por sinal que há muito se dá mais evidência ao pavimento do que o emprego de cautelas da drenagem. Claro que os governistas relembrarão aquela tese da engenharia hidráulica segundo a qual não se sabe quando uma série histórica de índices pluviométricos será rompida como aquela que levou Noé a montar a sua arca que abrigaria a representação faunística em casais repetindo a saga de Adão e Eva,
Depois de tudo vem a maior preocupação: cheias criam condições favoráveis a epidemias como se já não as tivéssemos tantas, uma delas a leptospirose, que por várias vezes se manifestou na capital, pondo em xeque o título de cidade ecológica, embora se considere que os ratos integrem a cadeia, posto que prestigiados demais em Curitiba com suas corridas na rua das Flores. Pior seria se touradas fossem.
Confronto
Urge pesar bem as palavras do pacote contra a violência, tal a interpretação que se dá à liberdade de ação policial. Londrina é um exemplo: só neste ano dez mortes (uma a cada dez dias) nos choques entre suspeitos e policiais. O Gaeco mostra que em 2018, em Londrina, tivemos 23 mortes e em Curitiba 76, a primeira do ranking.
Não há corporação que não tenha uma doutrina sobre o tema, seja militar, civil ou guarda municipal com o seu decálogo operacional a respeito, o que não é garantia alguma e exige o cuidado permanente do Ministério Público, até pela resistência, para criar uma cultura para prevenir abusos. O que fazer quando no país temos a patologia do braço paralelo das milícias como se não bastasse a corrupção desenfreada que alcança toda a malha institucional como a do Rio de Janeiro, em quem o então ministro da Justiça, Torquato Jardim, via todas as chefias e comandos do setor civil e militar comprometidos com o crime organizado? Isso foi dito clara e abertamente e não contestado.
Havia gordura
Se o reajuste da tarifa de ônibus em Curitiba ficar nos R$ 4,50 anunciados é porque a última, de R$ 4,25, tinha alguma gordura decorrente daquela diferença brutal da tarifa técnica, sempre em parte corrigida pelo subsídio governamental para as linhas metropolitanas. E a tarifa poderia ser menor se a municipalidade tivesse maior determinação no projeto de reduzir cobradores pelo sistema de passagem eletrônica para evitar que essas demissões afinal comprometessem o andamento das negociações com a eventualidade de uma greve. De outro lado ganhou destaque a campanha institucional da renovação das frotas. Admitia-se que a passagem poderia chegar a R$ 5 e isso geraria desconforto sério, pois por muito menos a massa foi às ruas em 2013 e iniciou a derrubada de Dilma Rousseff, como poderia significar agora o fim da reeleição de Rafael Greca e isso sem considerar os candidatos que terá pela frente.
Folclore
Se houvesse choque armado com a Venezuela é possível que falangistas do PT lá estivessem, entre eles a Gleisi, para defender Maduro contra o golpe. Em 1964, uma das perguntas dos coronéis sumariantes era tradicional: opinar sobre a frase de Luis Carlos Prestes, segundo o qual numa guerra imperialista ficaria com os russos. Poucos dos nossos deixou de afirmar que ficaríamos com o Brasil. Intervenção militar na Venezuela é assunto deles, não nosso.


