União em torno do 'espólio' de Lula leva esquerda a impasse
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domingo, 15 de abril de 2018
Mariana Franco Ramos<br> Reportagem Local 

Curitiba - Sonho antigo de militantes de diferentes correntes políticas, a tão falada união das esquerdas voltou à pauta após a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do triplex em Guarujá (SP). Antes mesmo de o petista ser levado à Superintendência da Polícia Federal (PF) em Curitiba, onde começou a cumprir pena de 12 anos e um mês no sábado (7), membros de partidos como PSOL, PSB, PDT e PCdoB resolveram se somar à luta pela libertação do petista.
A (re)unificação se dá inclusive entre legendas que estiveram em lados contrários no Congresso Nacional até o ano passado, como o PSB, que apoiava o governo de Michel Temer (MDB-SP), e as que já lançaram pré-candidatos à Presidência da República, no caso Manuela DÁvila (PCdoB) e Guilherme Boulos (Psol). A deputada estadual gaúcha e o coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), aliás, têm aparecido mais nos palanques lulistas que líderes conhecidos do próprio PT.
Ambos já estiveram na capital paranaense, vistando o acampamento Lula Livre, instalado a poucos metros da sede da PF. "O que nos une é a denúncia da condição de preso político do ex-presidente Lula", discursou Manuela. "O Lula é um preso político. É isso o que está em jogo. Trinta anos depois da Constituição que marcou o fim da ditadura militar no Brasil, nós temos novamente um preso político. Precisamos mostrar ao povo brasileiro que a história montada pelo Judiciário para prender Lula é uma farsa", completou Boulos.
Tal proximidade não significa, necessariamente, fortalecimento. Para o cientista político Giuseppe Cocco, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), considerando que o pleito de outubro se aproxima e que a candidatura de Lula é cada vez menos provável, essa decisão leva o grupo a um impasse. "Isso não é novo. A prisão do Lula só confirmou. Praticamente a esquerda toda, desde a mais radical, até a mais moderada, decidiu se juntar em torno do espólio, que acham que é um legado, do lulismo, esquecendo todas as críticas que deveriam ser feitas, e que antes eles faziam", comentou.
"Em seu discurso lá no ABC [em São Bernardo do Campo], antes de se entregar e ser preso, o Lula indicou apenas o Boulous e a Manuela. Não citou ninguém do PT, porque quer continuar a ser o candidato em função da estratégia dele. Ou seja, bloqueou a intenção de se definir um plano b. O [Fernando] Haddad [apontado internamente como provável substituto] estava lá e o Lula preferiu não lançá-lo. Acho muito provável que isso acabe confluindo na candidatura do Ciro Gomes, que nem é de esquerda. São os mistérios da esquerda", prosseguiu.
De fato, o próprio Haddad, também em visita ao acampamento em Curitiba, garantiu que o PT não trabalha com outra hipótese que não seja a candidatura do ex-presidente. "Não é que o PT ainda aposta no Lula. O PT só aposta no presidente Lula. Não há outra discussão no partido. A decisão está tomada e é coletiva. Existe total confiança na inocência do Lula", disse. De acordo com o ex-prefeito de São Paulo, a sigla pretende registrar a candidatura no dia 15 de agosto. Até lá, existe a expectativa de que o Supremo Tribunal Federal (STF) reveja seu posicionamento sobre a prisão após condenação em segunda instância, o que beneficiaria Lula.
Questionado sobre a possibilidade de união entre os partidos de esquerda, como PSOL, PCdoB e PDT, além do PT, Haddad novamente se esquivou. "Vamos aguardar o julgamento das ADCs (Ações Declaratórias de Constitucionalidade). Temos a expectativa de que a letra da Constituição será observada. Nossa única agenda é essa."
A presidenta nacional do PT, Gleisi Hoffmann, escolhida como porta-voz de Lula, foi na mesma linha. "Não existe plano B por dois motivos. Primeiro porque Lula é inocente. Substituir a candidatura seria como dizer aos algozes que eles estão corretos. Segundo que ele já não é mais candidato do PT. Ele é de uma parcela expressiva do povo brasileiro. Você faz pesquisa e o Lula tem 40% de intenção de votos. Nós não temos o direito de titubear em relação à candidatura de Lula. Cabe ao PT defendê-lo e viabilizar", afirmou à FOLHA.


