Capa retrô de hoje reproduz a primeira capa de novembro de 1948, quando o ex-presidente Getúlio Vargas estampava a foto principal; confira nas bancas
Capa retrô de hoje reproduz a primeira capa de novembro de 1948, quando o ex-presidente Getúlio Vargas estampava a foto principal; confira nas bancas



Passados 15 dias da vitória nas urnas, na eleição mais polarizada desde a redemocratização do País, o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) já sente a responsabilidade do cargo que ocupará a partir de 1º de janeiro de 2019. A atuação da equipe de transição e o anúncio dos seis primeiros ministros que comporão seu governo já foram um termômetro para que a opinião pública tenha uma ideia do que poderá vir a ser a gestão do primeiro militar a presidir a República desde o fim da ditadura.

As fusões de ministérios sofreram críticas de setores e pressão de opositores. Bolsonaro também precisou recuar em alguns discursos mais radicais. O embaraço em relação à intenção de mudar a embaixada do Brasil em Israel, de Tel Aviv para Jerusalém, provocou reação dos países árabes, com possíveis retaliações comerciais do bloco que constitue um mercado importador de quase 10 bilhões de dólares em produtos brasileiros.

No campo político, o discurso radical da época de campanha deu lugar ao Bolsonaro mais comedido. A inexperiência política do "guru econômico" ao exigir pedir pela Reforma da Previdência ainda este ano fez com que o presidente eleito precisasse atenuar uma fala de Paulo Guedes, que pediu para dar uma "prensa" no Congresso.

Imagem ilustrativa da imagem Uma prévia do governo Bolsonaro



AVALIAÇÕES

Para o professor de Sociologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie Rodrigo Prando, o ponto positivo é que Bolsonaro tem voltado atrás quando comete "escorregões" nos discursos. Um exemplo foi quando desistiu de unir os ministérios da Agricultura e Meio Ambiente em uma só pasta por pressão de ambientalistas e de aliados da bancada ruralista. "Ele tem se saído melhor nas nomeações do que no discurso. É um erro quando ele resolve agrupar ministérios sem fazer um estudo mais aprofundado. O mesmo acontece com a possível extinção do Ministério do Trabalho, porque mexe com interesses políticos, mas também porque se trata de um órgão importante responsável por medições e controle", diz Prando.

Na mesma linha, o professor de ética e filosofia política do mestrado da UEL (Universidade Estadual de Londrina) Elve Cenci também enxerga prejuízo nessa fusão em algumas áreas sem um estudo prévio. "O Ministério do Trabalho tem que ter protagonismo, não pode ficar agregado". Cenci destaca que mesmo que Bolsonaro tenha a pretensão de atacar o modelo histórico de presidencialismo de coalizão, diminuindo interferência de indicações partidárias, é preciso ter planejamento. "Ele e seu ministro Onyx Lorenzoni tinham intimidade com o Legislativo. Em que pese o fato dele ter sido bem sucedido em campanha para se comunicar com o seu eleitorado, fica claro que ele não tem um plano do que faria se ganhasse", ressalta.

Segundo Cenci, o PT e PSDB, por exemplo, não passaram pela mesma dificuldade, porque já tinham administrado prefeituras e estados antes de assumir o Palácio do Planalto. "Já Bolsonaro foi eleito por um partido pequeno que ficou grande de uma hora para outra e terá que aprender rápido a governar."

MUDANÇA DE TOM

Rodrigo Prando também destaca a mudança de tom no discurso do capitão da reserva, menos radical do que adotado na campanha. "Ao verbalizar neste momento, ele deve se portar como chefe de Estado e chefe de Governo. Algo que ele está começando a entender aos poucos. O problema é que ele será preparado no exercício do mandato. Essas idas e vindas no discurso e na prática só serão atenuadas quando ele estiver cercado por uma equipe qualificada."

Já Elve Cenci diz que Bolsonaro ainda não desceu do palanque. "Algumas posturas podem provocar um estrago imenso, prejudicando o país", diz o professor ao lembrar o incidente diplomático após a sinalização de mudança da embaixada do Brasil em Israel. "Para isso existe a diplomacia, o presidente precisa estar cercado de consultores para falar institucionalmente". Para Cenci, o mesmo vale no debate político e com a opinião pública. "Não só na política externa, mesmo aqui dentro ele terá que se comunicar com todos, com a oposição também. Não só com os 40% que votaram nele."

SUPERMINISTROS
Os analistas políticos também alertam sobre os superministros Paulo Guedes na Economia e o juiz federal Sergio Moro na Justiça. Segundo eles, os "superpoderes" podem fugir do controle do presidente eleito. "A grande tensão que vai haver neste governo é uma tensão clara entre Bolsonaro e Paulo Guedes. O novo ministro tem uma personalidade forte. Bolsonaro, apesar do tom adotado até aqui, conhece o Congresso, já o economista conhecido por ser ultra liberal não tem experiência política", lembra Prando.

Outra preocupação é até quando os superpoderes não poderão deixar Bolsonaro refém dos futuros ministros e retomar a premissa política de que não é recomendável indicar um ministro que não poderá demitir adiante. Para Cenci, não há unanimidade em relação ao plano liberal de Paulo Guedes e ele terá que encarar as pressões do mercado e políticas para implantar o que está desenhando como saída para a recessão. "Ele pode ser atropelado por essa engrenagem. Se cai, ele inviabiliza o governo Bolsonaro porque Guedes foi uma aposta muito alta."

MORO
Para o professor de sociologia da Mackenzie, a indicação do juiz Sergio Moro para comandar o Ministério da Justiça foi um fator positivo. "É um elemento político importante como recado das urnas." Apesar da grande aposta política da indicação de Moro, Elve Cenci pondera a difuldade que o juiz federal terá na área da Segurança Pública, que foi o principal mote da campanha bolsonarista. "Se ele não apresentar resultado a opinião pública pode começar a cobrar. Por outro lado, se tudo der certo corre-se o risco de a personalidade de Moro crescer mais que o Bolsonaro no governo."

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