Janaina Garcia
Reportagem Local
Foram 14 votos a favor e seis contrários naquela que foi a maior sessão – em extensão de tempo e de relevância – nos 74 anos de história do Legislativo londrinense. Se muita gente àquela época aguardava o famigerado ‘‘bug do milênio’’ nos computadores, para Londrina, o ano 2000 foi marcado pelo ‘‘bug político’’ com a cassação do então prefeito Antonio Casemiro Belinati – a primeira, do tipo, nos atuais 76 anos de emancipação política da cidade. Na próxima terça, dia 22, a sessão histórica de 26 horas na Câmara Municipal completa 10 anos.
  Investigado em Comissão Processante (CP) e punido pelos parlamentares por gastos de R$ 400 mil considerados excessivos na inauguração do Pronto-Atendimento Infantil (PAI), em março de 1999, já às vésperas do julgamento político Belinati era alvo de investigações do Ministério Público (MP) por conta do escândalo Ama-Comurb, que rendeu a ele, a ex-secretários municipais e ex-diretores das duas extintas autarquias de seu terceiro mandato um compêndio de mais 100 ações cíveis e criminais das quais nem 10% já foram julgadas em segunda e terceira instâncias. Mesmo a questionada venda de 45% de ações da Sercomtel para a Companhia Paranaense de Energia Elétrica (Copel), por R$ 180 milhões, ainda não teve uma resposta – em forma de ressarcimento – ao erário. Desse montante, uma vez que parte foi destinada à amortização de dívidas da época, hoje o MP estima que
R$ 74 milhões teriam
sido subtraídos.
  A FOLHA ouviu analistas e personagens envolvidos diretamente na investigação que antecedeu e sucedeu a cassação de Belinati sobre o saldo político que Londrina colheu, ou ainda colhe, do episódio. De lá para cá houve duas prisões do ex-prefeito, em maio e em julho de 2001, denunciado por peculato, formação de quadrilha e fraude em licitações, além de, anos depois, em 2004, a derrota dele nas urnas no segundo turno eleitoral: perdeu por cerca de 17 mil votos para o petista Nedson Micheleti (PT).
  Por outro lado, nesse tempo a cidade também o ajudou a se sagrar o quinto deputado estadual mais votado em todo o Paraná, no pleito de 2006 (81.157 votos), e prefeito pela quarta vez, no segundo turno de 2008, em uma eleição que teria, em março de 2009, uma terceira – e, para Belinati, excludente – etapa, já que, em dezembro, dois meses após o pleito, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) negou a diplomação do ex-prefeito graças à desaprovação de contas de 1999. O recurso especial derradeiro ingressado pela defesa no Supremo Tribunal Federal (STF) está sem tramitar desde fevereiro deste ano.
‘Aprendizado’
  Para o cientista político Elve Cense, a cassação, ao longo desses 10 anos, trouxe respostas diferentes no campo político e na esfera eleitoral. ‘‘Entendo que houve avanços na cena política local: basta ver a arrogância com que alguns vereadores, por exemplo, tratavam a sociedade, e como é agora, com a atuação conjugada de instituições como MP e imprensa, que fez com que escândalos não caíssem no esquecimento ou que não durassem uma semana’’, definiu, para ressalvar: o caso ‘‘deve servir de aprendizado’’. ‘‘Hoje, a mera escolha de representantes expõe a necessidade de qualificar o processo político e a interação permanente com a sociedade; é a história do ‘cheque em branco’ que não pode acontecer’’. Como explicar, então, duas eleições seguidas do prefeito cassado? Para Cense, boa parte da resposta está no modelo atual dos atuais representantes.
  ‘‘Se a maioria do eleitorado votou e escolheu o Belinati, não é apenas pelo populismo inerente a ele e pelo carisma que tem, mas muito pela percepção geral em relação à classe política. Além disso, o ex-prefeito tem a sensibilidade para pegar as necessidades mais básicas do eleitorado dele e, em cima de duas ou três promessas, trabalhá-las a seu favor. Talvez essa noção do que é mais imediato e elementar seja um aprendizado aos nossos políticos’’, acredita.
  Se Cense acredita em mudança de paradigmas – ainda mais com a recente lei ‘‘Ficha Limpa’’? ‘‘Com lentidão, o eleitor tende a se tornar mais exigente, e os coronéis têm perdido espaço, mas levanta-se um outro tipo: o dos que detêm poder de mídia e poder econômico. Enquanto não acabarem os mitos desses falsos ‘salvadores da Pátria’,
a lentidão das mudanças
vai continuar.’’

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