Um corte na rotina
Ano retrasado, início da gestão Beto Richa, a Polícia Federal desencadeou a Operação Dallas que apontava irregularidades graves nos portos. Ninguém chiou no governo porque obviamente o fato se ligava à administração anterior e era bastante confortável ver uma organização externa flagrar as patologias dos nossos terminais.
Agora se deu de novo, por obra e graça da Polícia Federal, mexendo num tabu da terra: a ineficiência da Sanepar e aí enfocando um passivo de dezenas de anos na administração dos esgotos, sabidamente falha, tanto que se revelou, e isso recentemente, que os resíduos dos três poderes no Centro Cívico eram lançados sem tratamento no rio Belém, um dos afluentes da bacia do Iguaçu, o segundo rio mais poluído do Brasil, conforme levantamentos nacionais, logo depois do Tietê de São Paulo.
Bastou dessacralizarem a estatal- e isso com fatos visíveis a olho nu e com o nariz- para que administradores e políticos, ainda mais em função da eleição municipal, entrassem em fúria de Velho Testamento como se os deuses estivessem prontos a punir os pecadores com fogo certamente porque água e esgoto daria uma redundância de discutível gosto.

O gatinho de Bandeira
Uma peça poética de Manoel Bandeira trata do gatinho da pensão burguesa que lança as suas sujidades no jardim e diligentemente as cobre com terra para escondê-las. Em que pese tudo o que se proclama de meritório na Sanepar é sabido que enquanto na água ela oferece padrões internacionais já não opera com tanta eficiência na parte dos esgotos. Oculta-se essa vulnerabilidade com sistemas precários de fossas negras de proporções e sem tratamento, mas que estão longe de ter a utilidade da cloaca máxima dos romanos. Age-se quase no estágio do gatinho do poeta.
É a incapacidade dos nossos governos em quererem manter a sociedade com uma visão acrítica permanente dos problemas como se suas mensagens publicitárias e seus discursos fossem a expressão da verdade. Esse é um viés fascista, ainda atual, da perspectiva governamental: responder críticas com ameaças de processos, desqualificação de quem bota o dedo na ferida ou daquele que punciona o tumor latejante e revela a sua carga de purulência. Foi, inclusive, por essa razão que a ditadura militar nessa parte foi ajustada por nossa militância na autocensura.

Fim da moleza
Houve um tempo que um burocrata da comunicação social pedia a jornais, rádios e tevês que não dessem determinada matéria e isso era aceito pacificamente. Há, é verdade, alguns desses agentes que diante de um caso como essa da ação policial federal acham ainda válido pedir a supressão da notícia. Se um idiota o atender será desmoralizado no meio da noite com a divulgação detalhada da ocorrência no Jornal Nacional como se deu no caso da Consilux (ainda operante apesar da rescisão apressada do prefeito Luciano Ducci) no ''Fantástico'' com um dos seus dirigentes admitindo que beneficiam transgressores apanhados por seus radares.
A moleza anterior - aquela do mal estar da autoridade ameaçando cortar contas publicitárias - acabou. Estamos nas dores do parto da democracia, mas depois do mensalão cara feia oficial não sensibilizará ninguém.

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