Brasília - Ninguém teve tanto poder político nos anos 80 quanto o deputado Ulysses Guimarães. Ele foi um dos principais articuladores da aliança formada pelo PMDB e pelo PFL para eleger a chapa Tancredo Neves-José Sarney, quando foi lançada a proposta de se fazer uma Assembléia Nacional Constituinte durante o governo da Nova República. Em 1986, o Plano Cruzado levou o PMDB a uma espetacular vitória em todo o País. Ulysses chegou ao Congresso ainda mais forte do que era.
Presidente do PMDB, ele foi eleito também presidente da Câmara e da Assembléia Constituinte. Como o presidente Tancredo Neves morrera e a Presidência fora ocupada por José Sarney, a condição de presidente da Câmara transformou Ulysses também em vice-presidente da República. O deputado passou então a ser conhecido por tetrapresidente.
Em 12 de outubro de 1992, quatro anos e sete dias depois de promulgar a Constituição e depois de ter tido uma votação pífia na disputa pela Presidência, em 1989, o helicóptero que transportava Ulysses caiu. Seu corpo desapareceu no mar.
''Chegamos, graças a Deus, ao povo brasileiro e à Assembléia Nacional Constituinte, nós chegamos'', gritou Ulysses, no dia 5 de outubro de 1988, ao mesmo tempo em que brandia um exemplar da Constituição, qualificada por ele de ''Constituição cidadã''.
Com tantas atribuições e tanto trabalho - afinal, a Constituinte votava todos os dias, sábados e domingos, e por muitas vezes varava madrugadas -, houve ocasião em que Ulysses, então com 72 anos e uma disposição invejável, chegou a ir trabalhar calçando meias diferentes em cada pé. Mas ele conseguia disfarçar o cansaço. Dizia que o poder era afrodisíaco.
''Ele estava sempre tranquilo. Dormia pouco, mas da forma que deitava acordava e sempre acordava cedo. Ia logo telefonando, iniciando as articulações políticas, o que ele mais sabia fazer'', diz Marco Antonio Tozzatti, secretário particular de Ulysses durante toda a Constituinte e no período posterior.
''Com o doutor Ulysses as articulações não tinham fim. Ele vivia a política e todos nós aprendemos muito com ele, afirma o presidente do PT, José Genoino.
Ao todo, Ulysses presidiu 330 sessões plenárias da Constituinte, quando foram feitas 1.021 votações. A frase que ele mais gostava de pronunciar, quando chegava e via o plenário em completo burburinho, era: ''Vamos votar, meus amigos, vamos votar.''

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