Em menos de dois anos e meio à frente da prefeitura de Londrina, Barbosa Neto (PDT) bateu um recorde: foram 49 mudanças de titulares ligados aos 28 órgãos existentes, como secretarias, autarquias e empresas. Somente sete desses órgãos permanecem com o mesmo secretário nomeado em 1º de maio de 2009. Agnaldo Rosa foi o último caso de troca, no início do mês. Até então secretário de Obras, ele pediu demissão depois que a pista do Autódromo Ayrton Senna - com recapeamento ''fresco'' - acabou ''derretendo'' com o calor durante treinos livres da Stock Car.
Para ex-secretários e analistas políticos, a ''flutuação'' de comando traz prejuízos à administração, uma vez que os projetos não completam seu ciclo. ''Não é normal tanta mudança. Os projetos sofrem com a questão da continuidade e não se cria uma relação de confiança'', avaliou o cientista político Mário Sérgio Lepre.
O professor de filosofia Elve Cenci, da Universidade Estadual de Londrina, entende que tantas mudanças revelam características do chefe do Executivo. ''O Barbosa é centralizador: já deixou claro que ele manda e os secretários devem obedecê-lo. Assim, secretários com mais envergadura, que eram o elo entre a administração e a sociedade civil, foram deixando o governo'', avaliou. ''O último grande nome de peso da administração, que era o Fernando Kireeff (presidente da Sercomtel), saiu.''
A Saúde é emblemática. Cinco secretários já deram seu tom à Pasta, mas persistem os problemas - agravados com as investigações do Ministério Público sobre desvio de dinheiro público através de entidades contratadas para executar programas de saúde.
Para Elve Cenci, os problemas na saúde começaram ainda na indicação de Agajan der Bedrossian, no começo do governo. Naquela época, a Associação Médica propôs três nomes para a Pasta, mas Barbosa insistiu em Agajan, que já havia sido secretário de Saúde, inclusive durante duas administrações do ex-prefeito Antonio Belinati. ''Foi um nome que veio sem força, sem apoio da sociedade.''
Porém, mesmo nomes que surgiram de indicações da sociedade não se sustentaram. Exemplos são o do ambientalista Carlos Levy e do engenheiro Nelson Brandão. Ambos acabaram exonerados por Barbosa Neto. ''Até hoje não sei porque fui exonerado. Eu seguia o Plano de Governo (do prefeito) à risca e um dia o prefeito me disse: Preciso de seu cargo'', relatou Levy, ex-secretário do Meio Ambiente. ''Eu entrei de corpo e alma para trabalhar. A equipe era muito boa, coesa, mas isso, pelo que vejo hoje, foi se apagando.''
Com Brandão, que respondia pela Obras e ficou dois meses na Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), se deu algo parecido. ''Era 21 de abril (de 2010), feriado de Tiradentes, e eu estava pescando. Achei que secretários pudessem descansar no feriado'', afirmou. ''Mas posso garantir que esse não foi o motivo de minha exoneração. O motivo real foram divergências de pensamento: eu seguia o Plano de Governo e alguém queria desviar do caminho'', disse, enigmático.
Para o cientista político Mário Sérgio Lepre, as exonerações são mal explicadas, assim como algumas permanências. ''A gente imagina que o prefeito haja com dois pesos e duas medidas porque demitiu um secretário por supostamente estar pescando e mantém um secretário que confessou ter sonegado um imposto da municipalidade. Não há razoabilidade'', disse, referindo-se a André Nadai, presidente da CMTU, que assumiu publicamente ter deixado de recolher o Imposto sobre Transferência de Bens Imóveis (ITBI) na compra de um apartamento.
Outro secretário mantido no governo a despeito de críticas é Marco Cito, que começou no Procon, foi para a Gestão Pública (SGP) e atualmente acumula as Pastas de Governo e Chefia de Gabinete. A pedido de empresários, Barbosa o exonerou da SGP por ter concedido aditivo supostamente irregular em contrato para limpeza dos prédios públicos com a empresa Proguarda.
Supostas irregularidades não derrubaram Nadai ou Cito, mas fizeram cair em maio deste ano o quinto procurador-jurídico do município, Fidélis Canguçu, preso em flagrante sob acusação de cobrança de propina dos institutos Gálatas e Atlântico. Outra saída ligada a denúncias foi a do ex-secretário de Defesa Social, Benjamin Zanlorenci, em novembro do ano passado. Ele teria praticado irregularidades na contratação de empresa que deveria executar o curso de formação da Guarda Municipal. Barbosa considerou graves as acusações e o demitiu. Menos de seis meses depois, Barbosa foi acusado de improbidade administrativa pelo Ministério Público pelo mesmo fato.

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