Curitiba - A casa simples e alugada, com paredes pintadas de cor rosa, onde mora a travesti Andrielly Vogue, no bairro Cajuru, em Curitiba, sofrerá em breve uma reforma: a garagem será transformada em comitê. Candidata à Câmara da Capital pelo PT, Andrielly conta que é a primeira travesti a disputar um pleito no Paraná. Caso parecido, completa ela, ''só num município lá de Piauí''. Andrielly tem 32 anos e, em 2005, começou a pensar na possibilidade de sair candidata. Assim, poderia colaborar para que as agressões que sofreu por preconceito não se repetissem com outras pessoas. Em uma das situações, Andrielly foi atingida por pedras atiradas por um grupo de homens. Nenhum deles teria sido punido até agora. ''As autoridades não têm como fazer nada. Eles têm demandas maiores, casos de homicídio, por exemplo''. A solução, portanto, estaria no combate ao preconceito, afirma Andrielly.
''O governo federal já desenvolve ações contra a homofobia'', avisa ela, já em tom de campanha eleitoral. Mas, aqui em Curitiba, além de fortalecer as ações do governo federal, um dos objetivos é cobrar a criação de uma secretaria especial ''para atendimento às minorias''.
Entre exemplos positivos, ela cita o caso do Instituto de Identificação do Paraná, que já aceita fotos de travestis nos documentos. Andrielly fará uma nova carteira de identidade na próxima semana. No documento, seu nome permanecerá ''José Adriano Elias'', mas a foto, comemora ela, será outra. Andrielly, na verdade, se refere ao fato do Instituto de Identificação do Paraná ter abolido o padrão ''paletó e gravata'' para os homens. A norma interna, segundo informações de funcionários do próprio instituto, não tinha respaldo legal. Brincos grandes ou cabelo no rosto ainda devem ser evitados no momento da foto, mas a idéia agora é registrar no documento uma aparência próxima daquela do dia-a-dia. ''Agora sim eu vou ter identidade''.
A candidata diz que se sente preparada para o posto na Câmara. Ela estudou até a quarta série, mas exibe com orgulho 27 certificados de cursos de capacitação que ela teria feito sobre áreas como transporte, saneamento, habitação. Andrielly conta que trabalha desde os 8 anos de idade. Em Paranaguá (Litoral do Estado), onde nasceu, ela vendia rosas, principalmente para estrangeiros. Dois dólares cada flor. ''Lá eu aprendi a falar um pouquinho de oito línguas'', anuncia ela, ao contar de um a dez em grego.
Questionada sobre suas chances nas urnas, ela afirma que a Capital paranaense de fato é ''um tanto conservadora''. ''Mas tem bastante homossexual enrustido aqui'', brinca.

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