Tratoraço para quê?
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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Luís Fernando Wiltemburg<br>Reportagem Local 
Londrina - O recuo da classe política do Paraná em relação às medidas amargas propostas pelo governador Beto Richa (PSDB) só ocorreu porque mexeu diretamente com os direitos de uma categoria de fácil mobilização como os professores estaduais, na visão de cientistas sociais ouvidos pela FOLHA.
Para eles, o comprometimento de deputados estaduais com o governo só foi superado pela má repercussão das ações diante das manifestações que culminaram com a ocupação da Assembleia Legislativa (AL) do Paraná e não pelo indicativo de que a sociedade rejeitava as propostas e a aprovação no "tratoraço", sem discussões aprofundadas.
No dia 4 de fevereiro, Beto enviou à AL dois projetos de lei que tratavam desde programa para incentivar o pedido de nota fiscal até alterações no sistema previdenciário dos servidores estaduais, passando por modificações no sistema de progressão de carreira dos professores e cortes de benefícios como vale-transporte para quem não estava em sala de aula.
O governador ainda pleiteava a aprovação em regime de urgência, sem discussões pelas comissões técnicas do Legislativo que sequer foram definidas para este mandato ainda.
Os temas tratados foram suficientes para que professores da rede estadual se mobilizassem contra as propostas. Diante dos protestos, o governo ainda tentou amenizar os atritos ao recuar nas questões envolvendo os professores, mas a greve, com adesão de outras categorias chegando a 30 mil servidores obrigou a retirada do projeto de pauta, principalmente após a ocupação pacífica da AL depois da aprovação do pedido de urgência.
Para o professor de ciência política da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Fabrício Tomio, do ponto de vista constitucional, os parlamentares tinham a prerrogativa de aprovar os textos mesmo diante da flagrante posição contrária de seus eleitores.
Porém, do ponto de vista político, o projeto só não foi aprovado para evitar o desgaste de suas imagens já no início da legislatura. "Os deputados jogam dois jogos, relacionando-se com o governo e com o eleitor. Num momento de manifestação tão intensa, eles passam a ser mais suscetíveis aos eleitores do que para a pressão que o Estado estava fazendo", avalia.
O estrago na imagem já pode ser sentido, em particular, por dois deputados estaduais da região de Londrina: Tiago Amaral (PSB) e Cobra Repórter (PSC), ambos da base de sustentação do governo, são alvos de crítica do eleitorado por terem, ao aprovar o pedido de urgência, votado contra os interesses dos eleitores, segundo manifestações em redes sociais.
Para o professor de ética e filosofia política da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Clodomiro Bannwart, os mandatos eletivos não são usados para defender determinados fins coletivos, mas vistos como um jogo de forças para manter um grupo político no poder. "[A política] funciona de uma forma totalmente desconectada da sociedade ou de interesses diversos", diz.
Parte disso ele credita à diluição da oposição, que ocorre já no período pré-eleitoral, com a formação de coligações. "Não há mais um equilíbrio de forças dentro do Congresso ou da AL porque as grandes coalizões no período eleitoral já elimina isso. Aliam-se a quem tem mais capacidade de ser eleito para dividir o poder", diz.
Para os dois especialistas, a mobilização só funcionou porque atingiu os interesses de um grupo bem específico e já mobilizado que ainda contam com a simpatia da população. "O custo [das medidas] era muito concentrado dentro do funcionalismo e, mais específico, entre os professores. Então, o prazo entre entrar na AL e ir à votação, uma semana, é tempo suficiente para se organizarem. Se fosse para alterar algo, não deveria ser relacionado a eles", avalia Tomio.
A mesma mobilização, entretanto, não deve ser esperada em relação a medidas impopulares que envolvam interesses mais difusos, como o aumento nos combustíveis ou nos impostos, que afetam a população como um todo. "Os motoristas não vão se mobilizar por aumento de R$ 0,20", considera Bannwart.
Para ele, as atitudes dos políticos contrárias aos interesses dos eleitores ocorre porque não há um instrumento que obrigue os eleitos a cumprirem as promessas sequer o plano de governo dos candidatos aos poderes Executivo nas diferentes esferas é seguido à risca. "Aí fica a pergunta: fomos ou não enganados?"


