Trajetória sem martírio
Era perto das 19 horas do dia 19 de março de 1978. Em São Paulo, o jornalista e escritor Luiz Manfredini acabara de fazer um "ponto", que era como as pessoas dos movimentos clandestinos se encontravam, sem lugar definido, para evitar suspeitas. "Fui preso ali. Me levaram até a Rua Tutoia, onde funcionava o DOI-Codi (órgão de repressão subordinado ao Exército). O carro parou e já me botaram um capuz".
Ele não lembra muito bem quanto tempo permaneceu no local, antes de ser levado para a cela. "Houve pau de arara, sabe? É uma vara que o cara passa embaixo do joelho, como se estivesse de cócoras, e a sua mão vai para debaixo da barra; quando eles te levantam, fica como um frango assado. Também me botaram sal na boca, deram choque elétrico e colocaram um troço para ferver embaixo, tipo uma chaleira, talvez para desidratar mais", detalhou.
Apesar da tortura, Manfredini diz que sua trajetória não contém martírios, lamentações ou arrependimentos. "Barbárie mesmo sofreu o Zapatinha, que sempre conheci pelo apelido. Encontrei-o em Maringá, em 1969, quando já tinha passado por nove internações hospitalares. E há outras pessoas, jovens que foram trucidados, como o Paulo Stuart Wright, até hoje desaparecido".
Integrante da antiga Ação Popular (AP), organização marxista leninista nascida a partir da atuação da Juventude Universitária Católica (JUC), o escritor foi para Maringá e, em seguida, para a capital paulista por conta de um disfarce. O mesmo aconteceu com Wright, dirigente nacional do partido. "A AP não defendia a luta armada; propunha transferir para o que considera áreas fundamentais da sociedade as fábricas e o campo a maior parte da militância. Queríamos, dentro de um processo um pouco mais lento, integrado às lutas nesses setores, despertar a consciência e avançar", explicou. (M.F.R.)





