Tradição é a marca, apesar da renovação em dois terços
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domingo, 02 de fevereiro de 2003
Agência Estado 
Brasília - A composição do Senado, renovado em dois terços nas eleições de outubro, tem 22 ex-governadores e 15 ex-ministros nos próximos 4 anos, mantendo uma tradição do sistema político segundo a qual a senatória é o caminho natural dos atores que ocupam altos postos regionais ou na esfera nacional.
A cada legislatura, contudo, o Senado se torna mais heterogêneo. Entre os 81 senadores, encontram-se representantes de tradicionais agrupamentos políticos conservadores regionais, tais como Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), Marco Maciel (PFL-PE), Tasso Jereissatti (PSDB-CE), Roseana Sarney e seu pai, o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP).
Há também novas lideranças, eleitas na embalo da campanha do PT de Luiz Inácio Lula da Silva. São mulheres que derrotaram homens consagrados na política, como são os casos das senadoras Serys Slhessaenko (PT-MT), Ideli Salvatti (PT-SC) e Patrícia Gomes (PPS-CE). Serys, por exemplo, que se identifica como ''independente e destemida'', derrotou o ex-governador do Mato Grosso, Dante de Oliveira (PSDB), e o ex-senador Carlos Bezerra (PMDB).
O Senado terá também os parlamentares que trabalham com a conciliação em quaisquer circunstâncias. Normalmente são bem-humorados, como o novo senador Heráclito Fortes (PFL-PI), ou discretos como Marco Maciel.
Existem também os bem-humorados, como Pedro Simon (PMDB-RS), que ainda tem quatro anos de mandato para brilhar na tribuna. O líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), prevê que dessa mistura de opções políticas sairá ''um grande fórum de debates''.
O debate no plenário é uma das características do Senado, que representa os Estados (3 senadores por unidade federativa), e se diferencia da Câmara pelo ambiente calmo e civilizado em que seus integrantes duelam usando palavras ásperas e cortantes.
Novo na Casa, Mercadante mede seus passos e palavras. Para ele, por exemplo, os colegas que podem ser chamados de líderes oligarcas ele os vê como ''líderes com grande experiência política''.
O líder do PDT, senador Jefferson Péres (AM), diz temer que, a excessiva cautela das forças políticas resulte na ausência de oposição no Senado. ''Alguém terá de dizer que o rei está nu, se ele não estiver vestido'', observa. Se isso ocorrer, Péres promete denunciar no primeiro discurso que fizer da tribuna.
O Senado é fundamental para as ações de governo. É ali que são aprovados as renegociações das dívidas dos Estados, os acordos bilaterais, os empréstimos com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Entram ainda na sua pauta de votações, entre outros, os nomes de dirigentes do Banco Central, tribunais superiores, embaixadores e os titulares das agências reguladoras. Além disso, o Senado funciona como instância revisora das leis aprovadas na Câmara. O que os senadores vetam, volta para reapreciação na Câmara, o que pode tornar impossível ou demasiado longa a aprovação de um projeto de lei ou de emenda constitucional.
O futuro presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), o senador Antonio Carlos Magalhães, alerta que o Planalto terá de volta o tratamento que der aos senadores. ''Vai depender de como Lula agirá'', adverte. ''Até agora, o governo não pode ser julgado, mas o presidente tem mostrado capacidade, inclusive internacional.''
A julgar pela reação da senadora Serys Slhessaenko, Lula vai ter trabalho é mesmo entre os ''destemidos'' do PT. A começar pelo fato deles apoiarem a voz discordante da senadora Heloisa Helena (PT-AL) contra o modelo econômico adotado pelo governo, que antes era combatido pelo partido. A senadora garante que não aceitará ''retrocessos'' nas reformas da Previdência e trabalhista, entendendo como retrocesso as inovações destinadas a reduzir o custo da criação de empregos e eliminar o grande déficit do sistema previdenciário. Sobre um possível choque com os políticos tradicionais, ela e ACM têm opiniões divergentes.
Para o senador, é importante que prevaleça o respeito entre as duas partes: ''Será um Senado de tendências variadas, com políticos experientes e outros que suprirão a experiência com a coragem de enfrentar os debates, independentemente da ideologia''.
Já Slhessaenko acredita que eles, os experientes, vão ter de esquecer os procedimentos passados e se aproximarem das propostas de interesse do povo. ''Não vale mais usar o poder em busca do tráfico de influência'', acredita. Mais diplomático, Heráclito Fortes acha que, no final das contas, prevalecerá a paz e o entendimento, inclusive entre seu partido e o governo petista. Ele parte do princípio que, como foi o PT que se aderiu às reformas constitucionais defendidas pelo PFL, a sua aprovação será também uma vitória dos liberais.


