Trabalhar no Japão é uma pauleira
O jornalista Darci Higobassi - ex-Estado de S. Paulo, Veja, Jornal do Brasil e Agência estado -, 54 anos, paulista de Taquaritinga, divorciado, pai de duas filhas e oficialmente aposentado, foi para o Japão a primeira vez, em 1993, para trabalhar num jornal dirigido à comunidade brasileira. No ano passado, talvez por um atavismo inexplicável, voltou para lá, dessa vez como peão de fábrica. Era mais um dekassegui a sentir dia e noite o peso da discriminação. Sua experiência será transformada em livro - a ser lançado até outubro -, a partir de memórias não escritas. Não viajei como jornalista e não escrevi uma linha sequer, mas está tudo vivo em minha cabeça, diz Higobassi, que na semana passada concedeu à Folha a entrevista abaixo. Não quero dar conselhos a ninguém, quero apenas contar minha vida de trabalhador estrangeiro no Japão.
Folha - Como foi seu interesse em trabalhar no Japão?
Darci Higobassi - Em 1993 fui convidado para ser editor geral do International Press, importante jornal dirigido à comunidade brasileira. O dono é Yoshio Muranaga, um japonês que fez fortuna no Pará e tem vários negócios no Japão, importação de produtos brasileiros inclusive. O jornal tirava na época 150 mil exemplares (hoje são 230 mil) e a oferta era mesmo tentadora. Fui sozinho morar em Tóquio, onde me esperavam uma redação eficiente e um belo salário de US$ 3,3 mil mensais, com direito a dois abonos por ano. Eu não era, então, um dekassegui qualquer, pois era contratado diretamente pela empresa. Mas problemas pessoais me obrigaram a voltar para o Brasil, depois de apenas três meses. Valeu a experiência porque vivi o lado bom da vida no Japão, frequentava recepções na embaixada do Brasil, conhecia gente importante e era sempre bem tratado. De volta ao Brasil, fui trabalhar, pela quarta vez, na editoria de economia do Estado de S. Paulo.
Folha - E a idéia de ser dekassegui?
Higobassi - Era 1997 e eu já estava oficialmente aposentado, fazendo jornal de empresa. Para falar a verdade, aos 53 anos de idade, já estava de saco cheio de jornalismo. Estava separado e havia combinado com minhas quatro irmãs, Odete, Neuza, Nilde e Nilce, levar meu pai, Yoshimito Higobassi, que ia fazer 84 anos em março, para conhecer Fukuoka, de onde veio para o Brasil com um ano de idade. Mas ele mudou de idéia e, como tinha algumas economias, resolvi ir sozinho. Tinha até um convite para ser correspondente da Rádio Bandeirantes de São Paulo em Tóquio, mas estava tão cansado da profissão que recusei. Viajei sem intenção de escrever uma só linha. Fui para ser peão de fábrica mesmo, dekassegui igual a tantos outros, embora tivesse outros horizontes, como aprender o idioma japonês e buscar as tais raízes. Como sou nissei (filho de japonês), tenho direito a visto de três anos de permanência, e era esse o tempo que pretendia passar lá.
Folha - Como foi a chegada, agora em condições não de todo favoráveis?
Higobassi - Fui trabalhar na Kubota, uma fábrica de tratores e máquinas agrícolas em Utsunomiya, a cerca de duas horas de trem de Tóquio. Lá trabalhavam 30 brasileiros e eu, que só conhecia as fábricas como repórter, passei a viver a dura realidade de ser peão no Japão. Ganhava o equivalente a R$ 12 por hora, mas, como era contratado por empreiteira, não tinha direito a nenhuma vantagem trabalhista, nem mesmo à férias. Trabalhava com máquinas pesadas, apertava e desapertava parafusos, buscava peças no almoxarifado, operava furadeira de impacto, fazia serviço de pintura, levava o lixo para fora. Logo de cara me senti como o Carlitos do filme Tempos Modernos, e em duas semanas já tinha desenvolvido uma LER (Lesão por Esforço Repetitivo) na mão direita, o que me obrigava a usar medicamentos.
Folha - E o salário, pelo menos, compensava?
Higobassi - Na época ainda havia horas extras em profusão, e eu fazia cerca de 50 por mês. Chegava a ganhar perto de R$ 2,8 mil, mas, descontados alojamento, gás, luz, água e comida, ficava com R$ 1 mil. Era assim, como eu, que os brasileiros faziam sua poupança. Fiquei lá apenas três meses, pois o contrato da empreiteira com a Kubota iria terminar. Procurei e consegui emprego na Isuzu, fábrica de caminhões e vagon stations em Fujisawa, a mais ou menos uma hora de trem de Tóquio. Era outra pauleira, mas as horas extras já começavam a rarear. A unidade onde eu trabalhava era gigantesca, impossível de descrever. Éramos uns 200 brasileiros, dando duro dia e noite. Era então o mês de outubro, a crise asiática batia de frente. A contratadora ia deslocar pessoal para outras cidades, mas eu recusei. Aos 53 anos, sem falar japonês direito, pedi demissão. Lá estava eu, desempregado numa terra hostil. Estava em busca de minha identidade japonesa, mas não a encontrava. Queria entender o que fazia em meio àquele processo todo e não conseguia.
Folha - E depois?
Higobassi - Trabalhei na Kawasaki, que me roubava quatro horas diárias de condução, pedi demissão e uma brasileira, Aurora Mori, deixou que eu ficasse no alojamento. Passei por uns quatro empregos, fui parar numa metalúrgica que fornecia para o governo e, antes que a neve chegasse, já estava na cidade de Takasaki, província de Gunma-Ken, trabalhando numa fábrica de biscoitos. Depois fui para Funabashi, em Chiba-Ken, pertinho de Tóquio, trabalhar numa fábrica de comida instantânea. O salário já era bem menor e eu ganhava perto de R$ 1 mil por mês. Ficava 11 horas de pé, sem direito a descanso. Era outra pauleira. Fiquei lá 40 dias. Foi meu último emprego no Japão, último mesmo. Encerrei ali minha carreira de dekassegui.
Folha - Como era a convivência com os japoneses nas fábricas?
Higobassi - Apesar de sermos descendentes, éramos vistos como estrangeiros, cidadãos de quinta categoria. E não só os brasileiros, mas também os dekasseguis peruanos e bolivianos, cujo número é bem expressivo por lá. Os chefes usam o tempo todo a palavra hayaku, que quer dizer mais rápido. Quanto mais rápido se trabalha, mais rapidez eles exigem. Na Kubota, onde protestei e reivindiquei, designaram um funcionário para me seguir, às vezes com uma câmera de vídeo.
Folha - E o brasileiro cordial, como se adapta a essa situação?
Higobassi - Aos poucos, os brasileiros vão se adaptando a essa dura rotina. Posso falar do que vi e do que acontecia comigo. Quando o chefe não estava por perto, o trabalho transcorria em clima de camaradagem, um ajudava o outro e era possível até trabalhar conversando. Quando o chefe aparecia, era hayaku a todo instante, e o colega procurava trabalhar cada vez mais rápido para mostrar que seguia as ordens e era mais eficiente que eu. Esse individualismo espelha bem a realidade do sistema, e o brasileiro acaba incorporando isso. Fora da fábrica, nos poucos momentos em que se reúnem, os brasileiros são bons companheiros, são cordiais e preocupados com a situação do colega. Mas no trabalho é cada um por si. É um comportamento geral, a obrigação de cada um ser indivualista. É claro que há as exceções, mas são casos cada vez mais raros.
Folha - O sr. tem algum conselho a dar a quem pretende viajar para ganhar a vida no Japão?
Higobassi - Depois que saiu um texto meu na Veja de 1º de julho e passei a dar entrevistas a emissoras de rádio, ao Jô Soares, virei sem querer notícia nacional. Em São Paulo sou parado na rua para conversar com descendentes de japoneses ou não. É que procuro passar um sentimento sincero, do coração. O que acontece é que o problema verdadeiro não está no Japão, está bem aqui, junto de nós, no Brasil. Quem observa as coisas acontecendo só tem de ser contra o processo de globalização, contra esse massacre. Temos um governo insensível com a questão do emprego, um capitalismo superselvagem em nosso dia-a-dia. Nossas empresas estão sendo destruídas, o emprego está desaparecendo. Não é difícil imaginar o que aconteceria com nossa economia se, de repente, os 230 mil brasileiros resolvessem voltar do Japão. Mas para quem vai, algumas dicas: ter a passagem paga antecipadamente, levar algumas economias, aprender o que for possível da língua japonesa, ir preparado para a frieza da socidade de lá e pronto para trabalhar muito. O sistema é esse e não se pode mudá-lo.
Folha - E o livro?
Higobassi - Tenho mais de 800 páginas na cabeça, mas vou ficar numas 150 para as pessoas poderem comprar e eu poder vender. Mas o livro vai sair, creio que até outubro, e devo muito a meus amigos jornalistas Lázaro de Souza, Giovana Piccilo e Gleise de Castro. Outro jornalista amigo, Augusto Nunes, também de Taquaritinga, vai escrever o prefácio.
Folha - A propósito, o sr. aprendeu japonês como planejava?
Higobassi - Aumentei um pouco meu vocabulário. Pouco tempo depois que cheguei ao Japão, tirei essa idéia da cabeça. Passei maus bocados e não me arrependo de ter ido, mas não pretendo repetir a experiência.Arquivo FolhaHigobassi: Muitos brasileiros que não deram mais notícias à família já casaram e tiveram filhos no JapãoJorge Eduardo





