O sociólogo e cientista político francês Alain Touraine, 73 anos, amigo e ex-professor do presidente Fernando Henrique Cardoso, acredita que, depois de superar a crise econômica, FHC terá que dar um perfil de centro-esquerda ao seu governo para poder investir no que considera os dois principais problemas do País: saúde e educação.
O sociólogo francês Alain Touraine é o mais novo membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele tomou posse como sócio correspondente esta semana, na vaga do escritor mexicano Octavio Paz, morto no fim do ano passado. A ABL tem 20 sócios correspondentes além dos 40 acadêmicos brasileiros.
A eleição dos estrangeiros ocorre por indicação de um imortal nacional e o escolhido torna-se membro vitalício. A homenagem é prestada a intelectuais ligados à cultura brasileira, não necessariamente àqueles que se preocupam em divulgá-la no exterior.
Além do já morto Octavio Paz, receberam a homenagem o ex-primeiro-ministro português Mário Soares, o escritor francês Maurice Druon (também presidente perpétuo da academia francesa) e o moçambicano Mia Couto. Leia abaixo trechos de entrevista concedida à Agência Estado.
Agência Estado - O senhor já falou uma vez na importância de presidente ter apoio da opinião pública. Como acha que FHC pode reverter a queda de sua popularidade?
Alain Touraine - Fernando Henrique acaba de ganhar a primeira eleição. Sucedeu um presidente que se chamava real. A popularidade do Fernando Henrique era a popularidade do real. Ele foi eleito numa situação em que o real estava morto, numa situação de catástrofe quase mundial. E o problema do Fernando Henrique era salvar o País. O Brasil está saindo da catástrofe. Hoje, Fernando Henrique, pela primeira vez, depois do caso do real, entra numa verdadeira transformação, corajosa. É preciso realmente diminuir o déficit fiscal. Acho que o que vai acontecer, necessariamente, é que a saída da crise se fará com uma evolução do Brasil à européia. Qualquer coisa entre Blair (Tony Blair, primeiro-ministro do Reino Unido) e Aznar (José María Aznar, da Espanha). Não há solução política possível no Brasil sem sair da crise, sem dar a prioridade que nunca foi dada aos problemas sociais. É importante que se reforme rapidamente o espaço político de centro-esquerda.
AE - O senhor já disse que os países como o Brasil devem ter um governo de centro-esquerda. Isto seria possível com FHC?
Touraine - Não se pode fazer nada sem o presidente, mas o presidente não pode fazer tudo o que quer. A aliança com o PFL hoje não interessa muito à direita e não tem mais interesse para o presidente. Agora, o que faz o governo é salvar o País acima de tudo, por uma reforma de Estado. Uma vez que isso seja feito, penso que será uma conquista, e uma conquista muito mais difícil do que o real. Creio que a necessidade da existência e do crescimento do Brasil vão levar a dar prioridade aos grandes problemas sociais.
AE - O senhor quer dizer depois do governo Fernando Henrique?
Touraine - Durante. Agora, ele não pode ser reeleito. O problema é que hoje ele não tem mais maioria. O PFL diz ‘‘Vou trabalhar por mim . Uma vez vencida a crise, a partir do próximo ano, vamos assistir à procura de uma recomposição de centro-esquerda. Uma vez que a economia se reequilibre, quais são os dois grandes problemas do Brasil? Educação e saúde. Você acha possível fazer uma política educacional popular e de saúde pública sem uma maioria de centro-esquerda?
AE - Como avalia a atuação de FHC em relação à CPI dos Bancos?
Touraine - Não posso, não devo e não quero fazer julgamentos políticos. Mas isso é ruim para a imagem do presidente, com certeza.Agência EstadoMembro vitalícioAlain Touraine tomou posse esta semana como sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras (ABL)Agência Folha

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