Curitiba - Após ter desistido da disputa pela presidência da Câmara Federal, conquistada pelo peemedebista Michel Temer, o deputado federal Osmar Serraglio (PMDB/PR) assume agora uma missão própria dos tempos de crise entre Judiciário e Legislativo. Em entrevista ontem à FOLHA, Serraglio explica que sua tarefa é ''agilizar'' a regulamentação de artigos da Constituição Federal, na tentativa de evitar que os dois Poderes novamente entrem em conflito. ''É para acabar com aquele negócio do STF (Supremo Tribunal Federal) e do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) ficarem invadindo a seara do Legislativo, argumentando que a gente está sendo omisso'', afirma o peemedebista.
Um dos episódios mais críticos da relação entre os dois Poderes é recente. A Câmara tentou resistir a uma decisão do TSE, que cassava por infidelidade partidária o mandato de um parlamentar. A questão da troca de legenda ''sem justa causa'' acabou sendo tratada numa resolução publicada pelo TSE em 2007, depois da discussão sobre o tema ter sido adiada pelo Congresso Nacional. ''Vamos fazer um levantamento, em parceria com o STF e o TSE, para identificar o que é prioridade. Existem mais de 100 leis na Constituição que não foram regulamentadas. Criação de município, greve de servidor público, por exemplo. Não tem regulamentação nenhuma. O objetivo é que cada um faça o seu papel'', disse ele.
O convite para atuar como uma espécie de interlocutor, função ainda não exercida por ninguém na Casa, surgiu na conversa entre ele e Temer, no último domingo, um dia antes da eleição que definiu o novo presidente da Câmara. O paranaense admite que o tom da conversa tinha ligação com o fato da cúpula do PMDB não aprovar sua candidatura ''avulsa'' ao comando da Casa. Ele afirma, contudo, que não encara sua missão como uma troca, por ter saído da disputa. Serraglio garante que desistiu da eleição para evitar que seu partido ficasse numa situação ''complicada''.
Apesar da aparente vantagem de Temer na disputa, os votos de Serraglio poderiam colocar em risco a vitória de um peemedebista ainda no primeiro turno. ''Na reta final, eu sabia que não ganharia do Temer. Mas eu poderia fazer votos suficientes para provocar um segundo turno entre Temer e o Ciro Nogueira (PP/PI). Imagina eu ficar responsável por isso?'', argumentou ele.
Questionado sobre se o comando do PMDB teria ainda articulado sua indicação ao Tribunal de Contas da União (TCU), na tentativa de convencê-lo a ficar fora da disputa da Câmara, Serraglio nega. ''É claro que um partido quer ocupar espaços assim e, quando eles surgem, eu sou cotado por conta do meu perfil, mas a indicação ao TCU não procede''. A próxima vaga no TCU será aberta com a aposentadoria compulsória do ministro Marcos Vilaça, que completa 70 anos em 30 de junho de 2009. A indicação de um novo nome ao posto cabe ao presidente Lula (PT), que apoiou a vitória de Temer na Câmara.
Em carta pública, divulgada após o resultado da eleição, Serraglio agradeceu especialmente os membros da bancada paranaense que admitiram o voto ''regional''. ''O Paraná nunca teve um Presidente da Câmara dos Deputados. Cheguei a Primeiro Secretário 45 anos depois que o último paranaense atingiu tal posto. Sei que despertei o espírito paranista ao me lançar candidato e quero agradecer a tantas manifestações de apoio (...). Preferi a unidade e a vitória do partido. A imprensa registrou que minha desistência ''foi vital'' para a eleição de Temer'', escreveu ele.

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