Quatro testemunhas foram ouvidas ontem no inquérito instaurado pela Polícia Federal (PF) que investiga denúncias de irregularidades nas contas da campanha de reeleição do prefeito Nedson Micheleti (PT).
O primeiro a ser ouvido pelo delegado Fernando Lara que está interinamente na presidência do inquérito foi o proprietário do Estúdio S Vídeo Produções S/C Ltda., Ailton Soares, mais conhecido como ''Cobrinha''. Ele foi citado no depoimento da ex-assessora financeira da campanha Soraya Garcia. O Estúdio S ainda foi alvo de um dos 22 mandados de busca e apreensão cumpridos pela PF e pelo Ministério Público Eleitoral no início deste mês.
Após o depoimento, Cobrinha afirmou à imprensa que o seu trabalho teria custado R$ 320 mil. ''Está em contrato, R$ 320 mil'', contabilizou, negando ter recebido qualquer valor não declarado à Justiça Eleitoral. ''Lógico que não, negativo que houve'', afirmou. No entanto, na prestação de contas do PT foram declaradas quatro despesas com o Estúdio S uma em agosto e três em outubro de 2004 que totalizam R$ 285 mil. ''Existe uma diferença que não foi paga. O Cobrinha não recebeu a integralidade do serviço prestado. O que está lançado é aquilo que o Cobrinha recebeu. A imprensa gostaria de criar um factóide ou a imprensa quer noticiar o que está acontecendo? Eu estou noticiando o que está acontecendo. O Cobrinha é credor do partido sim'', defendeu o advogado do diretório municipal do PT, João dos Santos Gomes Filho, que acompanhou o depoimento. A legislação eleitoral prevê que todas as despesas sejam declaradas na prestação de contas, mesmo as não quitadas, que são transferidas para o partido. A esposa do produtor, Lúcia Soares, também prestou depoimento. ''Eu não sabia de nada'', declarou à imprensa.
O delegado também ouviu o ex-coordenador de produção da parte de comunicação da campanha, Nilton Marques, conhecido como Poka. ''Fui contratado pela produtora do Cobrinha. Tinha o compromisso com ele de viabilizar a produção'', relatou, sem dizer quanto teria recebido pelo trabalho. ''Não é relevante para o processo. Recebia diretamente do Estúdio S. Não tinha nenhum contato financeiro com a coligação. Naturalmente que eu obedecia as diretrizes do processo criativo do Bernardo (Pelegrini), a parte da comunicação, mas o meu contrato profissional foi com o Cobrinha'', disse.
Segundo João Gomes, Poka teria sido a única pessoa contratada por Cobrinha. ''O Cobrinha tinha o time dele, que são as pessoas que trabalham para ele. Além disso ele contratou o Poka. O Poka contratou três pessoas. A responsabilidade do Cobrinha é o Poka e o Poka tinha a responsabilidade por três pessoas. Além do time dele, que é o time fixo, o Cobrinha contratou só o Poka.''
A imobiliarista Sebastiana Taveri também prestou depoimento ontem à PF. Ela compareceu espontaneamente à delegacia, levando uma mala supostamente cheia de documentos acerca da tentativa de compra do terreno do Colossinho, entre 2002 e 2003, pela rede Wal-Mart para a construção de um supermercado. ''Entendemos que era oportuno municiarmos a Polícia Federal de todos os documentos e troca de correspondências que houveram em relação ao terreno do Colossinho, onde tratava-se de uma propriedade praticamente vendida e que houve um decreto de utilidade pública e que trouxe prejuízos para a venda'', explicou o advogado Ronaldo Neves. No depoimento prestado por Soraya à PF, ela cita uma suposta doação para a campanha de Nedson, no valor de R$ 1 milhão, de uma rede de supermercados.
O delegado disse que todas as informações colhidas nos depoimentos ''ainda carecem de mais estudo''. ''São suspeitas que a própria situação lança sobre essa questão acontecida nos anos de 2002, 2003, na pretensão desse grupo norte-americano de abrir um supermercado em Londrina. Os depoimentos trazem elementos que carecem aprofundada investigação porque são indícios'', analisou. Lara deve tomar hoje mais depoimentos de pessoas ligadas à publicidade da campanha petista.

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