Jornalista de TV há dez anos e há seis atuando com web, criando conteúdo para páginas (ou sites) noticiosos da Internet, Katia Menezes acabou sendo convidada pela Revista Imprensa para fazer um estudo comparativo sobre a cobertura jornalística do atentado de 11 de setembro em Nova York via Internet e televisão por alguns dos maiores veículos nacionais e internacionais: Globo News, Globo News.com, CNN, CNN.com e TV UOL.

Pelo menos para a web, o atentado trouxe consequências positivas. Muita gente perdeu o medo do computador, aprendeu o caminho dos sites de notícia e agora procura notícias na Internet com muito mais frequência. E a tendência é que a qualidade das notícias aumente cada vez mais porque o público começa a fazer exigências: ele quer espaço para participar, além de garantia de um retorno eficiente.

Essas são algumas conclusões da pesquisa feita pela jornalista, que esteve em Curitiba para apresentar seu trabalho no 8º Seminário Internacional de Jornalismo (Sintel), que reuniu cerca de 300 estudantes, professores e profissionais da área de comunicação entre os dias 15 e 17 de novembro. Antes de fazer sua palestra, Katia falou sobre seu projeto e o futuro do jornalismo na TV e na Internet em entrevista para a Folha.


Folha Quem saiu ganhando na cobertura jornalística da tragédia de 11 de setembro nos Estados Unidos: a televisão ou os sites da Internet?
Katia Menezes Algumas pesquisas dos Estados Unidos mostram que a primeira fonte de informação foi a televisão. Setenta e oito por cento das pessoas se ligaram primeiro na televisão, o que é perfeitamente natural, já que a gente tem uma cultura de 50 anos de televisão. É aquela cultura do ao vivo. Se você quer saber de uma notícia, você liga a TV. E aquela notícia era uma imagem. Era o avião, não tinha nada além daquilo. Foram dias vendo a mesma imagem, e era muito impressionante. Então, não dava para trocar uma tela da TV por uma telinha de web. Quem viu a notícia primeiro na web é quem estava no trabalho, não tinha acesso à TV, a maior parte estava no escritório. Mas depois teve um aumento, em setembro, de 56% no acesso a vídeos na web nos Estados Unidos por conta do atentado.


Folha No Brasil a procura também foi grande?
Katia Alguns números foram ventilados pelo Valor Econômico, mas são muito gerais. A Globo News, que converge todo sistema Globo, teve no dia do acidente dez vezes mais acessos. Eles precisaram fazer uma operação de guerra para conseguir atender todo mundo. E aí tem uma diferença radical, porque na TV com um sinal de satélite milhões de pessoas podem ver, já a web tem um limite, tem uma banda com uma previsão de quantas pessoas vão acessar. Se passa daquilo, trava tudo. Foi o que aconteceu no mundo inteiro. A CNN mudou a página dela, tirou tudo que é banner, anúncio, tudo que era penduricalho para a página ficar mais leve e fácil de acessar. Obviamente, com isso você não vai se preocupar com vídeo, que é o arquivo mais pesado que tem na web. Então no dia do acidente, ela veiculou alguns vídeos, mas foram pouquíssimas pessoas que conseguiram entrar porque estava tendo um acesso monstruoso. A mesma coisa aconteceu no Brasil.


Folha Além do interesse do público, você estudou a diferença na abordagem da notícia pela TV e pela Internet?
Katia Na Globo News e na CNN, o que você encontra é um reaproveitamento do material que está na TV, com uma edição natural do que é mais importante como imagem. Agora, você tem muito mais texto na web do que ao vivo. O que tem de diferencial de conteúdo é que a web consegue chegar mais perto, você consegue interagir mais, consegue mandar uma mensagem. A comunicação tem mais mão dupla do que na TV. O grande diferencial na cobertura do dia 11 e seguintes foi que se conseguiu fazer esta mão dupla. A CNN, por exemplo, conseguiu integrar a participação da web com a televisão. Com isso, ela consegue ter uma abrangência mais geral, porque eu posso estar aonde eu quiser e estar interagindo, mandando material para a TV. É um comecinho do que a gente vai ver na TV interativa no Brasil daqui a uns 5 anos quando isso realmente funcionar.

Folha Entre os sites de notícia, quem está se saindo melhor nesta cobertura?
Katia A TV UOL tem um universo diferente da Globo e CNN. Estes dois contam com um conglomerado de comunicação, que consegue pegar a produção de cada canal que eles têm e colocar na sua web. A TV UOL não, a produção deles conta com as agências de notícias, ela tem uma redação enxuta. E a proposta é mais analítica. É só ver o que esses portais, como o UOL, Terra, que não tinham uma tradição no jornalismo, fizeram: eles chamaram o pessoal da TV, o Paulo Henrique (Amorim), a Lilian (Wite Fibe), que já tinham credibilidade para ir para lá. E o que conta ali é uma visão mais analítica. Você não vai ter quantidade de notícia, um vídeo exclusivo, mas vai ter uma entrevista, uma análise. E o usuário sabe que vai encontrar isso ali. A cobertura da UOL foi baseada nisso. Teve menos o nervosismo da obrigatoriedade de colocar todas as imagens. Já a Globo e CNN foi mais para o factual.


Folha Que outras conclusões você chegou nessas comparações?
Katia O que se vê é que as pessoas estão mais interessadas em notícias. Está tendo um crescimento grande dos sites de notícias e principalmente daqueles ligados à TV, como a CNN, MSNBC, ABC, no Brasil a Globo News, por causa do tempo real. É uma metáfora do ao vivo e nós temos uma cultura de quase 50 anos do ao vivo. Então, é natural que se eu quiser saber as notícias, eu me ligue em meios de comunicação que oferecem isso, e um site de TV vai ter um material bem atualizado. No Brasil, isso é um pouco diferente porque como a gente ainda tem muito acesso discado, as pessoas ainda estão descobrindo o que é a Internet, o acesso ainda é grande para os sites de texto como o Folha Online, iG.


Folha O atentado acabou servindo de propaganda para a web então?
Katia Pois é, depois do atentado aumentou o número de visitantes e o tempo que as pessoas estão passando on line nos sites noticiosos em geral, tanto de TV, quanto de textos. Na CNN, em setembro, o tempo médio de uma pessoa no site foi de 33 minutos. Teve um aumento de 40% no tempo de permanência e de 141% no número de visitantes. No site da Globo News aumentou dez vezes o número de visitantes, e o acesso às áreas de notícias da TV UOL aumentou 700%.


Folha Isso mostra que em um momento desses as pessoas perdem o medo do computador para ir atrás de mais informações?
Katia É, e elas estão saindo só do nível da manchete. Elas não lêem só que o avião caiu, mas porque ele caiu, como caiu. Estão lendo o que é o antraz, vão pesquisar, ir atrás de níveis mais profundos da leitura. A pessoa entra na primeira página do site e está clicando, navegando, se aprofundando em notícias. É uma tendência em todo mundo aumentar essa preocupação com a notícia.


Folha Já aumentou bastante o acesso dos brasileiros à Internet?
Katia Já. Até porque antigamente os sites eram todos em inglês, agora você tem em português, então você democratiza mais. O volume de notícias em português é cada vez maior e a participação do público brasileiro também é cada vez maior. Em setembro, aumentou 17% o tráfego nos sites de notícia. Primeiro, tivemos as notícias do caso Silvio Santos, depois em setembro, outubro e novembro está tendo esta revolução aí. Na verdade, esse atentado está sendo um marco para a web, porque você está tendo condições de fazer essa cobertura on line. Ela não está mais atrasada em relação à TV, está acontecendo simultaneamente, o ritmo acontece na TV ao mesmo tempo que na web. Quer dizer, quem estava no escritório e não teve acesso à TV, no dia 11, foi tão bem informado como quem estava vendo TV, senão mais.


Folha Depois dessa revolução, qual a tendência do jornalismo na TV e na web?
Katia As pessoas estão buscando mais participação na TV. A TV já mexe com isso, se você assiste a um jogo do Brasil, você tem pergunta interativa para ir na web, você liga para lá e fala com o entrevistador, cada vez mais ela busca a participação. Então, tá virando uma via de mão dupla, que a web naturalmente nasceu assim. Já o jornalismo na web não nasceu assim. Todos os grandes sites só faziam a transferência das notícias e não tinham participação. Era só ler, e agora estão cada vez mais participativos. Acho que você vai ter formas diferentes de participar. Claro que vai ter conteúdos diferentes. É bem mais agradável sentar no sofá, pegar o controle remoto e ver a TV em 29 polegadas e discutir com a minha família o que está rolando, da novela à Cabul. É mais confortável do que sentar na frente do meu micro, um PC, um ''personal computer'', que eu vejo numa janelinha ou se dou full screen (janela aberta) estouro a imagem, quer dizer, por melhor que seja a banda não é a mesma coisa. São propostas diferentes. Agora como conteúdo acho que vão ficar cada vez mais parecidas.


Folha Esquecendo o atentado do dia 11, como é que está sendo a evolução e até o convívio do jornalismo na televisão e na web?
Katia Fala-se muito em convergência da TV e da web, mas o que estamos vendo na verdade é uma convergência dos meios de produção. Eu não mudei minha linguagem de TV. A edição que se faz na TV é a mesma que se faz na web, só estou disponibilizando de outra forma. Mas daqui algum tempo provavelmente vai surgir uma nova linguagem, eu vou fazer a minha matéria de um jeito bem diferente, mais interativo. Vou ter que prever que em algum momento uma pessoa pode perguntar para mim como foi o bastidor da notícia que eu fiz e eu tenho que estar pronta para responder, ou indicar mais fontes sobre o assunto que não deu tempo de incluir na minha matéria. Acho que estamos começando a caminhar para uma nova comunicação. Antigamente tinha a televisão. A gente ficava parado olhando, era só a visão e a brincadeira da palavra. Agora eu não sei o que vai surgir, porque além da televisão transmitir ela vai começar a receber informações. E os jornalistas devem estar preparados para esse momento, porque vão mudar as exigências para o profissional. Os profissionais que estão se dando bem no mercado estudam isso a fundo, todo dia questionam uma forma melhor de fazer isso, uma nova comunicação. E isso inclui não só a obrigação de dar a notícia, o jornalista tem que pensar em como é que a notícia vai repercutir e trazer a participação das pessoas. É o princípio da Internet: todo mundo participando igual. Então, um grande desafio é fazer as pessoas participarem.


Folha Então você acredita que a Internet pode mesmo democratizar a comunicação como sempre se falou?
Katia Está começando. É um processo lento, não só por parte dos meios de comunicação mas também pelo público. É um processo de amadurecimento. É preciso ver como o público pode participar, como dar retorno, tem um ajuste dos dois lados. Não adianta disponibilizar um monte de recursos, um monte de ferramentas para o público interagir se a gente não ensinar a ele como usar.


Folha Com isso, o jornalismo está ganhando em qualidade?
Katia Com certeza, porque o profissional não vai estar só vomitando a notícia. Ele tem que estar preparado para discutir, ouvir a crítica, comentar a crítica, levar o público a fontes mais inteligentes. Tem que ter um conhecimento muito mais amplo, tem que oferecer níveis diferentes de leitura.

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